O legado de uma bióloga apaixonada pela educação

Publicado em:  6 de junho de 2021

Elizabeth Lima da Gama, carinhosamente conhecida como Beth Gama, tefeense, foi muito mais que uma bióloga. Reconhecida por seu papel como educadora no município de Tefé (AM) quando da criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, Beth foi convidada pela antropóloga Debora Lima para atuar como coordenadora do núcleo de educação ambiental do Instituto Mamirauá.

Apesar de ter se formado e especializado em biologia, a grande paixão de Beth sempre foi a educação. Educadora nata, autodidata, apaixonada por ensinar e eterna estudiosa são apenas algumas das formas que amigos e colegas se referem à Beth Gama, que dedicou a vida à educação de crianças, jovens e adultos.

“A questão ambiental perpassava a formação à qual Beth se dedicou ao longo da vida. Ela entendia que nós éramos parte de um sistema, um sistema que envolve o ambiente, a natureza, os recursos e os seres humanos, então ela não conseguia ver essas relações dissociadas”, conta Ana Claudeise do Nascimento, que conheceu Beth ainda em 1999, quando fazia um estágio no Instituto Mamirauá. As duas acabariam trabalhando juntas por muitos anos quando o núcleo de educação ambiental foi incorporado pelo Programa de Qualidade de Vida do instituto e Claudeise tornou-se coordenadora do programa.

Beth Gama foi contratada com o objetivo de acompanhar o trabalho das escolas nas comunidades da reserva. Só havia um problema, ainda não existiam escolas nessa época na região. Beth então se instalava por um ou dois meses nas comunidades e as implantava nas casas dos moradores, apoiava na alfabetização das crianças, levava livros e buscava fontes de financiamento para que as prefeituras pudessem fornecer os materiais necessários.

Ela foi uma pioneira. Além de semear escolas, um de seus primeiros trabalhos no Instituto Mamirauá foi colaborar para a construção de uma cartilha de educação ambiental, um tipo de material que tampouco existia na região há cerca de 20 anos. Beth argumentava que se conhecia muito pouco sobre o modo de vida na várzea amazônica. Havia nela uma grande ansiedade relacionada à necessidade de produzir documentos e materiais que apoiassem a circulação de conhecimento nas comunidades. Ela se dispôs a criá-los, e encarava isso como seu grande desafio: aumentar a produção para que a Amazônia fosse melhor retratada, para que esse conteúdo estivesse acessível em escolas e para que professores pudessem trabalhar com materiais que refletissem a realidade local.

Outro presente que deixou foi a Série Peixes da Amazônia, resultado de uma metodologia interdisciplinar destinada aos alunos do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, e cuja última publicação foi lançada em 2010 pelo Instituto Mamirauá.

O seu legado foi enorme. Enquanto ninguém falava sobre educação ambiental como conceito no Médio Solimões, Beth já a praticava e iniciava sua consolidação por meio da formação de professores e da alfabetização de alunos.

“Uma coisa que Beth sempre repetia é que precisávamos concentrar nossos esforços na educação formal e na educação não formal. Para ela, a educação ambiental precisava ser trabalhada no ambiente escolar e também fora dele, com pais, avós e crianças, porque o ambiente envolve todos, e todos precisam ter essa consciência de conservar os recursos dos quais depende a reprodução das suas famílias”, explica Ana Claudeise.

Beth via a educação de forma holística, não acreditava que o ser humano pudesse ser separado do sistema do qual faz parte e trabalhava para que as pessoas a sua volta tomassem consciência desse sistema. Tinha prazer em compartilhar suas descobertas nesse compromisso com a educação, e estava sempre atuando para que ela fosse um direito de todos nas comunidades rurais. Conhecia todos os aspectos naturais da região da várzea e era generosa, sentia prazer em compartilhar o conhecimento que tinha.

“Beth para mim era uma enciclopédia ambiental, de tudo ela sabia falar com muita propriedade. Sobre sistemas ambientais, sobre recursos naturais, sobre mudança do clima e seus efeitos, ela era muito estudiosa. Nada do que ela trazia era superficial, tudo tinha muita profundidade e envolvia muito conhecimento e muita dedicação”.

Sempre teve preocupação com a formação continuada, essa era sua metodologia. Em municípios como Alvarães (AM) não deve haver um só professor, entre os mais antigos, que não tenha sido formado por Beth. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá há dezenas de professores que ainda hoje praticam as lições ensinadas por Beth e falam dela com carinho, ainda que seu trabalho nessas comunidades tenha se encerrado há mais de 15 anos. Não por acaso, há na Universidade do Estado do Amazonas um laboratório com seu nome, homenagem que recebeu ainda em vida.

Não apenas os conteúdos aprofundados que Beth levava para as reuniões de trabalho, mas a paixão que tinha por ensinar, pelo conhecimento, seu entusiasmo e bom humor, o belíssimo sorriso e a gargalhada gostosa inspiraram Claudeise.

“Beth gostava de cultivar as amizades, mesmo quando encerrou seu trabalho no Mamirauá e se mudou para Manaus, voltava frequentemente a Tefé e fazia questão de visitar todos os amigos que deixou na cidade”.

Também gostava de estar nas comunidades. Para além do trabalho que precisava ser feito, Beth estimava a convivência. Para ela era um esforço sobrenatural entabular uma conversa sem passar algum ensinamento sobre as questões ambientais.

“Uma vez enfrentamos um forte temporal a caminho das comunidades para avaliação dos trabalhos de educação ambiental. Ficamos por um longo tempo encharcadas embaixo de uma árvore e Beth me deu todo o apoio, me tranquilizou, conversou comigo, me explicou o significado dos temporais para a região amazônica e me fez perder o medo, foi inesquecível”, lembra com carinho Edila Moura, coordenadora de extensão do Mamirauá, área da qual Beth fazia parte quando ingressou no instituto.

Segundo Edila, Beth de fato encantava os que trabalhavam a sua volta com seu entusiasmo, sempre cheia de mil ideias e sempre muito comprometida com a educação das populações ribeirinhas.

“E o que mais encantava Beth era observar o desenvolvimento da nossa responsabilidade com a educação, com a compreensão da nossa participação no mundo. Ela usava os princípios do Paulo Freire e era uma profunda conhecedora dos principais educadores nacionais e da América Latina. Foi ela quem me ensinou os princípios da pedagogia do letramento, e ela aplicava esse conhecimento de imediato às populações ribeirinhas”.

Sua paixão nunca deixou que ela parasse de atuar para que a educação fosse um direito de todos nas comunidades rurais. Beth tinha um envolvimento muito grande com as prefeituras e secretarias dos municípios no entorno da reserva e foi muito atuante quando começaram a ser implementados os recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB). Beth apoiou prefeitos e secretários na elaboração dos documentos do projeto e no dimensionamento das ações, e isso permitiu que os municípios recebessem recursos para aplicar na educação. Era também muito atuante nos conselhos municipais de educação e estava sempre atualizada sobre legislação e os direitos das populações ribeirinhas.

Além da pedagogia e da natureza, a grande paixão de Beth era a cozinha. “O que ela mais gostava além do trabalho era de cozinhar. Beth cozinhava divinamente bem. Sempre que recebíamos pessoas de fora, ela se prontificava a preparar um delicioso tucunaré ou um tambaqui assado na brasa”, conta Edila. “Melhor pescada de forno que já comi na vida”, recorda carinhosamente Claudeise.

Beth nos deixou no dia 23 de abril deste ano, aos 78 anos, em decorrência de um choque séptico. Teve cinco filhos e passou os últimos anos de sua vida ao lado da filha caçula Geovana e seu neto. Ela conta que a mãe se sentia representada pela famosa frase da ativista paquistanesa Malala Yousafzai “um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo”. 

Beth Gama abriu muitas portas com o entusiasmo que tinha e por meio dos grupos que formava. Sabia agregar as pessoas, compartilhando conhecimento sempre com energia, na esperança de que, por meio da educação, fosse possível garantir a preservação e a conservação ambiental. Somos gratos a ela por ter contribuído para a construção de todas as ações de educação ambiental que temos hoje no Instituto Mamirauá, e qualquer tributo que façamos jamais estará à altura do legado e das saudades que ela deixou.


Últimas Notícias

Comentários

Receba as novidade em seu e-mail: