“Envolver as populações nas atividades de conservação é o caminho para a Amazônia”

Publicado em:  7 de agosto de 2019

Oceanógrafa e uma das maiores especialistas em mamíferos aquáticos da Amazônia, a gaúcha Miriam Marmontel chegou ao Projeto Mamirauá em 1994. Atualmente, é líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos do Instituto Mamirauá. Conversamos com ela em para a última entrevista de nossa série, que você pode conferir abaixo:

Como você chegou ao Instituto Mamirauá?

Eu estou aqui há vinte e cinco anos. Meu ingresso no Projeto Mamirauá foi uma viagem direta, sem escala, de Gainesville, na Flórida, para Tefé. Eu vim a convite do Márcio Ayres que compareceu à universidade onde eu estava fazendo doutorado, na Flórida, já no final do meu curso, em 1993. Lá, ele me falou do Projeto Mamirauá e me convidou para participar na parte de pesquisa em mamíferos aquáticos, que ele sabia que eu tinha interesse. Eu já havia o conhecido ainda nos anos 1980, na época que ele estava no Inpa.

Como nasceu a vontade de trabalhar na área de mamíferos aquáticos?

Esse sonho veio da interação que eu tinha com meu pai. Nós morávamos num bairro distante do centro de Porto Alegre, que tinha uns morros. Todo final de semana ele me levava para o morro e a gente ficava vendo as florzinhas, vendo as árvores e curtindo a natureza. Nas férias no Rio Grande do Sul também é comum fazer os veraneios indo para as praias. Nesses períodos eu ficava lá catando conchinha e gostava muito do mar. A partir disso, eu comecei a gostar demais dessa área. Eu acredito que em algum momento eu juntei as duas coisas. Eu tive essa fascinação pela Amazônia, pela grande floresta, pela mata toda e os bichos dela e, por outro lado, pelos animais da água. Aqui eu consegui juntar essas duas coisas: os animais da água no meio da floresta.

Quais foram as principais dificuldades do início desse trabalho no Mamirauá e como foram superadas?

A gente enfrentou muitos desafios quando chegamos. Primeiramente da cidade, que nos via com desconfiança e, em segundo, com as comunidades que não entendiam o que que aquelas pessoas de fora queriam fazer na reserva e mexer com a vida deles, com os recursos da reserva e ditar regras. Isso uniu esse grupo que se empenhou muito nessa tarefa e acho que foi uma grande missão de vida de fazer a reserva acontecer. Aos poucos os comunitários foram vendo os resultados de nosso trabalho e foram se interessando mais. Eles sempre foram envolvidos em todas as etapas. Fizeram parte das pesquisas, são coinvestigadores com a gente e nos dão muitas informações importantes. Aos poucos, eles foram se unindo mais a nós. Em 1999 foi criado o instituto porque o próprio governo visualizou a importância do trabalho e assumiu o Projeto Mamirauá, que até então era financiado basicamente por verbas externas.  Nessa época também se criou a Reserva Amanã e ali, o trabalho foi bem mais fácil porque as pessoas já estavam vendo os frutos colhidos em Mamirauá. Eles já viam a recuperação dos peixes, por exemplo, e que era possível pescar mais próximo de casa. Então no Amanã foi mais fácil todo o trabalho.

Como era o Márcio Ayres e qual a importância do trabalho dele?

O Márcio era uma pessoa incrível. Eu não cheguei a trabalhar diretamente com ele quando eu vim para cá porque naquele momento a função dele já era muito mais de divulgar o projeto no exterior, inclusive, de angariar fundos para a gente poder trabalhar. Mas sempre era muito prazeroso quando ele vinha porque o Márcio era um piadista e a gente se divertia muito com ele. Ele era também extremamente inteligente e visionário porque ele conseguiu vislumbrar essa reserva, captou uma ideia que estava ocorrendo no mundo e trouxe para cá, para essa região que ele tinha descoberto como sendo muito relevante. Eu acho que o Márcio criou muita coisa. Ele criou as reservas e fortaleceu esse grupo original que se mantém até agora e ele também foi capaz de galvanizar mais energias, então a gente sempre tem gente nova ingressando nos nossos grupos. Ele deu uma contribuição tremenda para a pesquisa na Amazônia. Muito se faz nas grandes capitais, mas pouca gente vem para o interior. Para a conservação é inestimável o legado que ele deixa da consolidação das reservas e do envolvimento das comunidades. Esse modelo foi sendo replicado em outros locais do país e até do exterior. Isso simboliza um alcance de coisas muito maior do que nós, que atinge a conservação do planeta. A gente está trabalhando muito fortemente para honrar a memória dele e o que ele criou e para não deixar que isso se acabe.

Qual é a importância da pesquisa científica na conservação do meio ambiente?

Eu acho que a pesquisa científica é básica para qualquer desenvolvimento. Aqui na região do Médio Solimões, a gente focou muito o trabalho na região das reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã e naquilo que era recurso para as comunidades, além da parte social. A pesquisa sempre foi um dos eixos fundamentais do Instituto Mamirauá e é o que nos dá o embasamento para fazer ações de conservação ou de melhoria de qualidade de vida. O fato da gente ter pesquisado e ter esses dados nos permite oferecer soluções tanto para a conservação da biodiversidade como para a melhoria da qualidade de vida das populações. A pesquisa do Instituto Mamirauá, por ser científica, também é altamente aplicável à outras regiões. Por isso, depois que nós começamos a trabalhar nas reservas aqui, nós começamos a expandir para outras áreas alagadas e de várzea na Amazônia.  Muito do que se criou aqui pôde ser aplicado em outras unidades de conservação ou até fora delas.

Comente a situação dos mamíferos aquáticos na Amazônia e os focos de pesquisa nessa área do Instituto Mamirauá

O nosso grupo de pesquisa trabalha com cinco gêneros de mamíferos aquáticos da região, que são: o peixe-boi, as duas espécies de cetáceos que é o boto vermelho e o tucuxi; e as duas espécies de lontras, que são: a lontra gigante, ou ariranha, e a lontrinha, o tropical. Todos esses grupos são impactados por atividades humanas. Isso de diversas maneiras, mas, principalmente, pela pesca. O peixe-boi, por exemplo, que foi muito caçado no passado, atualmente é caçado a nível de subsistência para alimentação das comunidades e em pequeno segmento de comércio nas cidades locais. O grande problema atual que nós temos com relação ao peixe-boi é que o fato de a gente viver numa área muito produtiva de várzea e a população estar em expansão, muitos pescadores colocam suas malhadeiras na beira do carapé, da casa, e o filhote peixe-boi se malha e não consegue romper esse material plástico e como ele precisa subir à superfície para respirar, ele geralmente acaba morrendo.  Em 2008, o instituto criou um centro de reabilitação de base comunitária de peixe-boi e nós trabalhamos entre os pesquisadores existentes com o apoio dos comunitários para a reabilitação desses animais que chegam às nossas mãos e nós os mantínhamos por dois anos, que é o período que eles ficam com a mãe, e depois nós soltamos no ambiente natural, então, o mais rápido possível e o mais próximo possível de onde eles foram capturados. Assim, eles voltaram a fazer parte da população natural e nós seguimos com o sistema de telemetria para acompanhar essa adaptação ao ambiente. [O Centro de Reabilitação de Base Comunitária, conhecido como centrinho, está desativado desde 2017 por falta de recursos. No caso dos botos, por muito tempo nós só trabalhamos só com animais mortos para tentar identificar quais eram as causas de mortalidade. A principal delas é a interação com a pescaria, também. Os animais também se malham nas redes ao tentar roubar peixes da rede que é mais fácil e também muitas vezes se afogam. Acredito que esse seja o problema principal, embora tenham outros fatores como a caça para uso como isca da piracatinga. [A piracatinga é uma espécie de peixe amplamente consumida na Colômbia e cuja pesca é feita através de iscas de carne de boto].

Em 2014, nós ampliamos o trabalho começamos um trabalho de levantamento de botos em diferentes rios e bacias, porque a Amazônia não é uma só, são várias ‘amazônias’.  Só para começar, nós temos três tipos de água: a preta, a branca e a clara. As condições químicas são diferentes. O recurso alimentar é diferente nessas águas, então, naturalmente as densidades de botos são diferentes nesses locais. O outro grupo de animais que nós trabalhamos são as lontras, que também sofrem ameaça com relacionada às atividades pesqueiras. Nos anos 1960, os animais que sobraram da caça para a pele, que era muito valiosa, se esconderam em locais remotos nas cabeças dos igarapés. À medida que essas ameaças foram diminuindo, eles começaram a retornar. Nós acompanhamos os grupos de lontras da Reserva Amanã, desde 2000, e a gente consegue acompanhar toda a evolução da população crescendo e se deslocando lago abaixo e ocupando os diversos igarapés.


Amanda Lelis

O que você espera dos próximos 20 anos do Instituto Mamirauá?

Para os próximos vinte anos do Instituto eu espero que a equipe do instituto se consolide melhor. Grande parte da nossa equipe ainda é formada por bolsistas. Não são membros contratados com certa segurança e por isso a gente tem dificuldades, inclusive, porque as bolsas têm limitação máxima e depois de cinco anos a pessoa tem que sair. Porque o instituto não consegue absorvê-las como contratados, a gente tem uma rotatividade muito grande de equipes prejudica muito o andamento das pesquisas porque se interrompe e aí chega uma nova pessoa que tem que acostumar com a região e o trabalho. O ideal é que a gente conseguisse uma permanência maior e também maior número de pesquisadores porque os desafios são grandes e as áreas são enormes. Nós trabalhamos em mais de três milhões de hectares só nas reservas aqui, fora as nossas atuações fora, nos outros estados e em outros biomas também.

O que você recomenda a um jovem que deseja vir pesquisar na Amazônia e como você vê a importância da integração com as comunidades na conservação do bioma?

Eu diria para um jovem que venha conhecer a Amazônia porque isso muda completamente a vida de uma pessoa. Aqui ele se depara com uma realidade totalmente diferente do que é acostumado. Ficar imerso aqui na Amazônia ‘real’, entre as árvores e os animais, te dá uma perspectiva muito diferente do que é isso e da necessidade da conservação e do esforço de todo mundo. Todas as pessoas que passam por aqui dizem que a vida delas mudou. E, surpreendentemente, apesar de todas as dificuldades, muita gente que já passou por aqui, volta.  Eu acho que a ideia de envolver as populações locais, na pesquisa e em todas as atividades de conservação e manejo é o caminho certo para a Amazônia e para diversos outros biomas. Porque, dessa forma, internalizam a necessidade disso. Reconhecem que esses esforços são feitos para elas porque, na verdade, os benefícios são seus. É uma forma de conservar o ambiente onde eles mesmos vivem, então, acho que a contribuição que eles também têm dado à pesquisa tem sido fundamental porque todo o conhecimento que eles compartilham conosco é fundamental para a gente avançar mais ainda nas pesquisas.

Ouça a entrevista completa:



Para assistir à entrevista, clique aqui.

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