Conhecimento tradicional é método eficiente para estimar abundância de espécies na Amazônia

Publicado em: 10 de Janeiro de 2020

Nova pesquisa mostra que conhecimento indígena é tão apurado quanto monitoramento por transecto para algumas espécies

O conhecimento tradicional pode ser tão eficiente quanto método científico para estimar abundância de espécies na Amazônia. Foi o que mostrou pesquisa que envolveu o Instituto Mamirauá, o Instituto Piagaçu e universidades parceiras como Universitat Autònoma de Barcelona, Oxford Brookes University, Manchester Metropolitan University e University of Suffolk.

A estudante de PhD da Oxford Brookes University e pesquisadora associada do Instituto Mamirauá, Thais Morcatty, apresentou a pesquisa no Congresso Anual da Sociedade Britânica de Ecologia (BES, na sigla em inglês).  O evento reuniu mais de 1.200 ecólogos de cerca 40 países em encontro que durou do dia 10 ao 15 de dezembro de 2019.

“Detectar e monitorar espécies silvestres em uma floresta tropical densa como a Amazônia sempre foi um desafio por causa da dificuldade de registrar os animais e os altos custos de expedições científicas. Nesse estudo, nossas descobertas mostraram que as estimativas de abundância das espécies de populações locais podem ser tão acuradas quanto as dos melhores métodos científicos que temos, como transectos lineares”, afirma a pesquisadora. 

A estimativa com base no conhecimento tradicional apresenta-se então como uma abordagem eficiente e econômica para monitorar espécies amazônicas e agregar informação que irá guiar estratégias de conservação do bioma.

“As descobertas indicam que, no geral, os resultados que obtivemos em dez anos de monitoramento por transecto são muito similares aos obtidos durante o mesmo período através de dados de conhecimento tradicional”, afirma Thais.

As populações locais chegaram a um consenso maior sobre a abundância de espécies como o guariba (Alouatta seniculus), macaco caçado para subsistência na região, enquanto houve maior divergência para espécies aquáticas e elusivas como a ariranha (Ptenoura brasilienses). 

O consenso é alcançado através de entrevistas para determinar as estimativas de abundância das espécies. Espécies com alto nível de concordância sobre a abundância tiveram estimativas similares aos resultados de transecto.

Baseado nisso, a ciência cidadã mostra-se como uma ferramenta apurada e integrada para obter informações sobre espécies silvestres. Os pesquisadores defendem que o conhecimento tradicional deve ser valorizado e a cultura indígena e ribeirinha dos povos da região, respeitada.  Os cientistas afirmam que integrar esforços para coletar e analisar dados de projetos de base comunitária permite traçar um panorama maior dos recursos da Amazônia. 

Como a pesquisa foi feita

Os pesquisadores utilizaram o método do consenso cultural para detectar as espécies cujas abundâncias poderiam ser estimadas com segurança por meio do método tradicional.

“A teoria de consenso cultural pressupõe que crenças culturais são aprendidas e compartilhadas entre as pessoas e há um entendimento comum sobre determinado tema entre as pessoas com o mesmo contexto cultural”, explica Thais.

O método do consenso cultural foi testado com caçadores homens para 97 espécies em 16 localidades que perpassam a Amazônia brasileira e peruana. 

O método foi utilizado em conjunto com um método estatístico conhecido como modelo generalizado misto aditivo, que foi utilizado para verificar se fatores como tamanho, habitat, elusividade e suscetibilidade à caça poderiam influenciar o nível do consenso entre os entrevistados. O modelo permitiu examinar o efeito cumulativo destes fatores, como eles agem individualmente e como afetam as estimativas de abundância de espécies.

“Testamos para ver se os entrevistados concordavam mais sobre a abundância das espécies quando eram animais de grande tamanho, caçados para subsistência, pouco elusivos, com um tipo específico de habitat, como terrestre ou aquático, e hábitos diurno ou noturno. ”

Espécies de maior tamanho e alvos de caça tiveram o maior consenso cultural – o que indica que entrevistas com populações locais seriam bastante precisos e teriam o mesmo nível de eficácia de pesquisas por transectos lineares na obtenção de dados desses animais. Foi constatada, entretanto, menor precisão para animais pequenos, elusivos e pouco caçados.

A bióloga adverte que a amostragem foi enviesada por uma perspectiva de gênero masculina visto que os homens são, em geral, os responsáveis pelas atividades de extrativismo nas matas. 

Além disso, as 97 espécies avaliadas eram, em suma, vertebrados de médio e grande tamanho, já que os transectos lineares não são utilizados para monitorar invertebrados e pequenos vertebrados como passarinhos, anfíbios e pequenos répteis.

Transectos, consenso cultural e outros métodos integrados são necessários para estimar a abundância de espécies amazônicas elusivas. A abordagem interdisciplinar também pode ser aplicada em outras comunidades: não apenas em áreas de amostragens da Amazônia, mas também em outras regiões de grande biodiversidade.

Os pesquisadores consideram a parceria entre cientistas, gestores e populações tradicionais a melhor forma de alcançar a conservação da vida silvestre e, ao mesmo tempo, contribuir para a preservação das culturas e estilos de vida das comunidades amazônidas.

Informações sobre abundância de espécies e suas variações ao longo do tempo são essenciais na tomada de decisões e ajudam no estabelecimento de áreas protegidas e avaliações de gestão e estratégias de conservação. A necessidade é urgente em áreas onde espécies são ameaçadas pelas atividades antrópicas como caça predatória, mineradoras, barragens, extração de petróleo e projetos de infraestrutura.

Texto: Press Advisory/ British Ecological Society

Tradução: Júlia de Freitas


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