“Vim para Amazônia para trabalhar com populações e me apaixonei por esse trabalho”

Publicado em: 24 de julho de 2019

Em mais um episódio da série histórica em homenagem aos 20 anos do Instituto Mamirauá, falamos com o biólogo Paulo Roberto de Souza, que chegou ao Projeto Mamirauá em 1995 e atualmente é técnico do Programa de Gestão Comunitária do Instituto Mamirauá.

Como você chegou ao Instituto Mamirauá?

Um dos sonhos que eu tinha, além da universidade, era trabalhar na Amazônia. Depois de conseguir isso, trabalhei quatro anos no rio Jutaí com os índios Catuquina, na Operação Amazônia Nativa (Opan). Depois, fiquei sabendo do Projeto Mamirauá.  Eu vim e conversei com a Deborah Lima, que coordenava o Programa de Participação Comunitária e me apresentei. Ela me fez duas propostas. Em uma, eu poderia trabalhar com as comunidades, dentro da participação comunitária que era o programa que ela coordenava. Na outra, era um trabalho mais na linha biológica, já que que eu sou biólogo. Seria para acompanhar, monitorar a pesca, verificar se de fato o esforço de conservação que as comunidades estavam fazendo, de proteger seus ambientes estava tendo resultados. Escolhi a última opção.

Quando comecei a trabalhar, me tranquei na biblioteca para começar a ler os relatórios que já existiam do trabalho, e aí que a coisa começou a mudar. Quando eu conheci a sequência de todo o conjunto de atividades que estava sendo feito, comecei a me encantar pela participação comunitária, pela ideia de envolver pessoas dentro de proposta de proteção de recursos naturais para conservação.

Quando eu fiz o projeto e mandei para ela chegou já diferente, e isso até gerou um certo mal-estar entre ela e o José Márcio Ayres. Ela depois me falou “Você combinou uma coisa comigo e quando chegou lá, chegou outra. O Márcio estava animado que ia ter uma pessoa para acompanhar, monitorar a pesca e chega lá uma pessoa para trabalhar na participação comunitária." 

Esse trabalho me motiva muito, por mais que existem desafios e infelizmente isso tem se tornado cada vez mais crescente, mas eu acho que o caminho que a gente tem se você pensar assim em conservação, proteção dos recursos naturais da Amazônia, tem que envolver as populações locais. Eu acho que o Mamirauá acertou em cheio quando teve essa ideia e a gente continua apostando nela. A gente tem conservação e proteção e melhoria da qualidade de vida na região. 

Quais as principais características do trabalho do instituto? 

O Mamirauá tem uma postura ética e de respeito com as populações tradicionais. Isso é fundamental e é o grande diferencial que a gente tem. Ter diálogo com as pessoas é fundamental, o caminho é esse, você apostar em uma estratégia de conflito e de confronto não resolve. O conflito é natural, ele surge a partir do momento que você se propõe a trabalhar de forma participativa de querer mostrar que a sua ideia pode ser melhor para as pessoas. Vão ter pessoas que vão pensar diferente. Mas eu acho que o caminho é construir esse processo de aceitação e empoderar as pessoas para que elas também saibam argumentar, possam colocar seus pontos de vista de forma respeitosa.

Como foi o convívio com o José Márcio Ayres?

O Márcio era uma pessoa fantástica, um ser humano incrível, alegre, um visionário, que enxergava à frente de seu tempo. Ele não estava tão presente aqui em Tefé, ficava mais envolvido em buscar recursos para o projeto Mamirauá, buscando a continuidade para essa ideia dele. Nas vezes que ele vinha, entretanto, foi o suficiente para me cativar e eu passei a admira-lo profundamente. 

Ele faz falta como uma pessoa que motiva o grupo, enxerga uma proposta, busca parceiros, sabe lidar politicamente com as organizações. Tem uma frase dele que eu gosto muito de citar "que as pessoas têm que serem vistas como parte da solução do problema da conservação", da ideia da conservação, botar polícia não resolve, a ideia da conservação tem que ser socialmente aceita. Ele é sim o nosso grande inspirador e é importante que os jovens o conheçam e saibam a história dele. Eu acho que a melhor homenagem que podemos prestar a memória dele é isso: continuar com esse sonho que ele construiu aqui e deixou para gente continuar levando em frente. 

Quais foram as principais dificuldades no trabalho do instituto e as maneiras de sobrepô-los?

Ao longo deste processo houve momentos tensos, principalmente de negociar a norma de uso para um determinado recurso, mas eu acho que pela forma de trabalhar que a gente se dispõe de sempre apostar no diálogo, a gente foi gradativamente conquistando as pessoas com essa ideia. A transformação da estação ecológica na primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil garantiu a permanência das pessoas e incluiu elas na deia da conservação e elas participando desse processo, que é o mais importante. 

O Programa de Gestão Comunitária é estratégico porque leva a ideia da proposta da conservação com a participação das pessoas. Atualmente, dado o nível de aceitação que nós temos e de entendimento das propostas, as coisas caminham mais rapidamente que no começo, mas ainda assim eu entendo que é fundamental porque o processo é muito dinâmico, novas ideias e propostas de uso do recurso natural chegam e a gente tem que estar ali, dialogar com as pessoas, esclarecer essa ideia para que elas externalizem suas ideias também, o que elas pensam em relação a isso. 

É claro que nesse processo pode surgir o conflito, a divergência, então você estar ali para dialogar e mediar esse conflito é muito importante. A gente tem a sorte de ter uma equipe multidisciplinar, pessoas com formação diferente. Isso colabora muito. 

Conte sobre o desenvolvimento dos Agentes Ambientais Voluntários

Nós formamos a primeira turma de quatorze comunitários dos setores de Jarauá que vieram a Tefé fizeram essa capacitação e começaram a trabalhar. Formada essa primeira turma em 1995, isso passou a chamar atenção de outros setores também, de outras comunidades que enxergaram no agente ambiental uma ferramenta, um instrumento para fortalecer o trabalho de conservação de lagos, preservação que ela apoiava aqui na região, e começou a demandar do Ibama esses cursos. 

Tanto que culminou em 2004 todas as áreas que o instituto já atuava ter sua equipe de agente ambiental voluntário.

Como você se sente após tanto tempo trabalhando nesta área?

Eu me sinto um biólogo social, eu vim para Amazônia para trabalhar com populações humanas e me apaixonei por esse trabalho, as pessoas te cativam muito aqui. Gosto muito e é o que me dá força realmente esse contato com as comunidades, poder estar dialogando, incentivando, mobilizando. O reconhecimento que eu tenho por parte deles, me dá muita força, é muito legal. 

Eu sou muito grato às comunidades por nos aceitarem, terem essa colaboração e parceria com a gente. Caminhamos junto é uma relação de companheirismo e eu acho que o Mamirauá é isso. 

Ouça a entrevista completa:




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