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Vida de Pesquisador: Conheça o cientista carioca que se tornou um dos maiores especialistas em onças-pintadas no país

Escrito por

João Cunha

Publicado em

25/07/18

O ecólogo Emiliano Esterci Ramalho mora há quase quinze anos no coração da Amazônia, tempo em que se aprofundou na ecologia do maior felino das América. O próximo desafio do pesquisador é um projeto para monitorar a floresta em tempo real. Conheça a história dele em “Vida de Pesquisador”, websérie lançada pelo Instituto Mamirauá

“Me marcou muito a minha primeira vinda para a Amazônia”, lembra o biólogo carioca, Emiliano Esterci Ramalho, de 39 anos.

Dividido entre dois caminhos distintos, a Biologia e a Informática, foi uma viagem feita na juventude em companhia da mãe, a antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Neide Esterci Ramalho, que fez sedimentar a certeza de que carreira seguir.

O destino era a Reserva Mamirauá, no estado do Amazonas, em uma região que anos depois o biólogo já formado escolheu chamar de lar. “Você vê que as pessoas daqui da região com tão pouco conseguem viver e serem felizes e terem as portas super abertas para as pessoas de fora, com essa vontade de acolher, de ensinar, isso é muito marcante”.

Com o pirarucu, maior peixe de água doce do mundo, veio o primeiro contato profissional com uma espécie amazônica, mas foi outro animal de proporções gigantescas que atraiu a admiração de Emiliano.

“Embora eu estivesse trabalhando com pirarucu, eu fiquei muito interessado na onça-pintada, exatamente pelo desafio, pelo pouco conhecimento que se tinha sobre a espécie, pelo fato de ninguém estar trabalhando aqui e na Amazônia como um todo”, conta.

Maiores felinos das Américas e predadores de topo de cadeia, as onças-pintadas na Amazônia viraram então o foco de vida e trabalho do cientista. Foi o momento de mudar de endereço, das praias e morros do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, para as florestas alagáveis do médio curso do Rio Solimões, onde vive há quatorze anos.

O biólogo dedicou esse tempo a conhecer melhor a ecologia e biologia de onças-pintadas nos ambientes de várzea, lugares que inundam todos os anos por cerca de 3 a 4 meses. Nesse cenário mutável, toda a natureza se adapta, inclusive o grande felino, que passa essa temporada no topo das árvores, se alimentando, reproduzindo e cuidando dos filhotes (veja fotos).

Esse comportamento é único entre a espécie e foi registrado cientificamente pela primeira vez pelo Instituto Mamirauá, em um projeto de pesquisa coordenado por Emiliano Ramalho.

Mestre em Ecologia formado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutor pelo departamento de Ecologia e Conservação da Vida Silvestre, na Universidade da Florida, Emiliano é hoje um dos principais especialistas nos modos de vida das onças-pintadas que vivem nas várzeas. No decorrer da carreira acadêmica, o pesquisador investigou o uso de habitat,  métodos eficientes para o monitoramento dos animais e estratégias de conservação da espécie.

“A onça-pintada é fundamental para a conservação da floresta e a floresta é essencial para a sobrevivência da onça-pintada”, afirma o pesquisador. “A Amazônia é um ecossistema chave para a conservação da onça-pintada, porque nela vive a maior população de onças no planeta, onde existe a maior quantidade de áreas protegidas para a espécie e também abundância de alimentação”.

No Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), realizou a primeira captura científica de uma onça-pintada na Amazônia. Foi um dos criadores e é líder do Grupo de Pesquisa Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia do instituto.

“O nosso trabalho aqui nessa linha de pesquisa de ecologia de movimento, tentando entender para onde as onças andam, qual é a área que elas precisam, quais habitats são importantes começou em 2008”, recorda o ecólogo. “A ideia é formar pessoas que tenham muita qualidade de trabalho de campo, de publicação, e que a gente possa com isso começar a disseminar projetos (com onças-pintadas) em diversas partes da Amazônia”.

De olhos na conservação da Amazônia

O mais novo desafio de Emiliano Ramalho vai muito além da proteção de uma espécie. Tecnologia de ponta e união científica internacional para criar o primeiro modelo de monitoramento a gerar dados automáticos e em escala sobre toda a floresta amazônica é o foco do projeto Providence.

Liderado pelo Instituto Mamirauá e com coordenação do biólogo carioca, o sistema está em desenvolvimento, um trabalho em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Politécnica da Catalunha (UPC) e o centro de pesquisa australiano CSIRO. No primeiro semestre do ano, a tecnologia, que está em testes na Reserva Mamirauá, gerou as primeiras imagens, de um macaco-prego carregando um filhote (confira aqui e aqui).

“Nós queremos que essas informações sejam úteis para outros pesquisadores, para que a ciência avance. Que o sistema seja usado como ferramenta de educação, de manejo de recursos naturais e conservação pelas comunidades locais e gestores de unidades e, de maneira geral, ser usado para enviar uma mensagem para o mundo sobre o que está acontecendo com a biodiversidade na Amazônia”, afirma o pesquisador.

Vida de pesquisador

O pesquisador Emiliano Ramalho é um dos destaques da websérie “Vida de Pesquisador”. Para  mostrar as histórias e trabalhos de pessoas que vivem a ciência em prol da conservação, o Instituto Mamirauá lançou a produção no mês de julho.

São 12 (doze) episódios, cada um com cerca de 7 (sete) minutos de duração e dedicado a um cientista do Instituto Mamirauá. São biólogos, oceanógrafos, arqueólogos, sociólogos e outros profissionais (veja o perfil de cada um deles abaixo) que trabalham e moram na Amazônia Central em projetos de conservação da biodiversidade e manejo de recursos naturais. Pessoas vindas de diversos cantos do Brasil e de outros países e encontraram nas matas e águas amazônicas inspiração e motivos para criar, descobrir e expandir os caminhos da ciência.

Confira abaixo o episódio sobre o biólogo carioca, que estreia às 17h dessa quarta-feira (25/07) no canal do Instituto Mamirauá no Youtube e na página da instituição no Facebook:

Vida de Pesquisador – Emiliano Ramalho

Texto: João Cunha

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