©

Conheça o tipiti, tecnologia indí­gena de uso secular na Amazônia

Escrito por

Júlia de Freitas

Publicado em

02/05/19

A mandioca é uma das fontes de alimento mais antigas cultivadas na América do Sul. Variedade comum na região amazônica, a mandioca brava (Manihot esculenta ranz) é venenosa e passou por um processo de domesticação pelas populações indígenas até se tornar própria para o consumo. Para isso, foram criados diversos artefatos – entre eles, o tipiti, utilizado até hoje na secagem da massa de mandioca para a produção de farinha pelos povos tradicionais da Amazônia.

O Dicionário do Artesanato Indígena classifica o tipiti como um cesto de trançado que pode ter diferentes formas e tamanhos. De confecção engenhosa, o artefato serve para extrair o líquido da mandioca.

Como funciona

O tipiti é um cilindro de aproximadamente dois metros de comprimento cujas extremidades são reforçadas. Em um dos lados é colocada a massa de mandioca, prensada pelo objeto para extração do líquido – no caso da mandioca brava, um caldo amarelado e letal para o ser humano.

Esse líquido, entretanto, muitas vezes é aproveitado. Após a extração, é recolhido e fervido para elaboração do tucupi, caldo utilizado em pratos típicos da Amazônica, como o tacacá.

A massa seca resultado do processo de extração é, então, transformada em farinha.

Felipe Pires
Felipe Pires
Felipe Pires

Pesquisa do PIBIC mapeia uso do tipiti na Amazônia

Com o objetivo de identificar a continuidade do uso dessa tecnologia na produção de farinha de mandioca na região do Médio Solimões, na Amazônia Central, o bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC) do Instituto Mamirauá Fabiano Mendes está realizando o mapeamento das comunidades que fazem uso do artefato na Floresta Nacional de Tefé (FLONA), no Amazonas, e também das novas tecnologias utilizadas como substitutas ao tipiti. O aluno apresentou os resultados coletados até agora no Seminário Parcial PIBIC do Instituto Mamirauá.

“Essa pesquisa irá fazer um levantamento etnográfico da produção do tipiti para entendermos diversos aspectos, como a matéria prima é confeccionada, se é comercializado e qual o valor”, explica Felipe Pires, técnico do Programa Qualidade de Vida (PQV) e orientador do projeto.

A fonte entrevistada pelo bolsista, dona Irene, da comunidade São Francisco do Bauana, relatou que fabrica o artefato desde os 12 anos de idade. Aprendeu observando a avó.

O processo, explica dona Irene, tem três etapas. Primeiro, é necessário escolher a matéria prima. Na comunidade da artesã, o cipó arumã (Ischnosiphon sp) e a palmeira jacitara (Desmoncus polyacanthos) são utilizados para o trançado. A diferença entre as duas fibras é que o cipó arumã seca a massa mais rapidamente, mas dura menos.

Nesta etapa, constata a pesquisa, Irene conta com a colaboração dos filhos, marido e comadres.  “[..] para poder tirar os cipós é preciso ter cuidado porque neles há espinhos, tanto nas talas verdes quanto nas talas maduras”, diz. Após a retirada do cipó, acontece a limpeza e o teçume das telas.

A comunitária afirma que 16 toras (o equivalente a cerca de 65 talas) de cipós é o necessário para fazer um tipiti de dois metros, considerado o tamanho ideal.

Manutenção da cultura material

Os trançados indígenas têm usos diversos na vida social das populações. As estruturas básicas, entretanto, exigem técnica com o uso das mãos, coordenação motora e imaginação do artesão.

“Os tipitis recebem denominações específicas para cada tipo de trama empregada. No caso desta pesquisa, foi possível elencar três tipos: teçume caminho de bicho; teçume boroari; teçume mata-mata”, relata o bolsista no Relatório Parcial da pesquisa intitulada “Tipiti: uma tecnologia secular dos agricultores da Amazônia”.

A pesquisa também investiga o a substituição do objeto por outras tecnologias, como a prensa. “Uma das ideias do trabalho é fortalecer a questão da cultura material do tipiti, uma vez que ele pode vir a ser completamente substituído por outras tecnologias”, afirma Felipe.

A pesquisa deve ser finalizada em julho, quando será apresentada no Seminário do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC) do Instituto Mamirauá.

Iniciação Científica no Instituto Mamirauá

Realizado há 15 anos no Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) é um dos primeiros passos de centenas de jovens amazonenses que desejam ingressar no mundo da ciência.

Desde a criação do programa, o instituto formou 390 estudantes, dos quais 42% ingressaram em programas de pós-graduação.

Texto: Júlia de Freitas

Últimas notícias

Feira do Caranguejo movimenta Castanhal com comercialização sustentável e valorização dos caranguejeiros

Neste último sábado (06), a praça Maria da Encarnação em Castanhal (PA) recebeu a Feira do Caranguejo,…

Instituto Mamirauá
15 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá
15 de dezembro de 2025

4ª edição do Curso de Multiplicadores em Manejo Comunitário de Jacarés fortalece as estratégias participativas de conservação da biodiversidade

O Instituto Mamirauá, através do projeto Entre Águas Amazônicas, realizou, entre 24 e 29 de novembro, a…

Instituto Mamirauá
11 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá na COP 30: ciência, cooperação e futuro para a Amazônia

A presença do Instituto Mamirauá na COP 30, realizada em Belém entre 10 e 21 de novembro…

Instituto Mamirauá
5 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá e parceiros para a revista Nature: Florestas saudáveis asseguram os sistemas alimentares tradicionais da carne silvestre na Amazônia

27 de novembro de 2025

Primeira estrutura flutuante para manejo de jacaré no Brasil recebe dispensa de licenciamento ambiental do Governo do Amazonas

25 de novembro de 2025

Instituto Mamirauá na COP 30. Acompanhe a nossa agenda em Belém

19 de novembro de 2025

Declaração Histórica de Mamirauá é anunciada na COP30

19 de novembro de 2025

Rede Bioamazonia lança publicação “Caminhos para a Ciência Pan-Amazônica” durante evento na COP30 

18 de novembro de 2025

Últimas notícias

Instituto Mamirauá e parceiros capacitam 50 agentes de saúde em tratamento de água, saneamento e higiene em Tefé, Amazonas

Treinamento visa fortalecer a atuação desses profissionais, principais atores da saúde pública na Amazônia, em regiões com…

Instituto Mamirauá
18 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá
18 de dezembro de 2025

Ministério da Saúde e Instituto Mamirauá firmam acordo para fortalecer ações de saúde indígena no Médio Solimões.

O Distrito Sanitário Especial Indígena do Médio Rio Solimões e Afluentes (DSEI-MRSA), vinculado ao Ministério da Saúde,…

Instituto Mamirauá
16 de dezembro de 2025

Mulheres do Teçume d’Amazônia celebram 25 anos de história, memória e fortalecimento comunitário 

O grupo Teçume d’Amazônia completou 25 anos reunindo artesãs, comunidades e parceiros na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (AM). O encontro…

Instituto Mamirauá
16 de dezembro de 2025

Feira do Caranguejo movimenta Castanhal com comercialização sustentável e valorização dos caranguejeiros

15 de dezembro de 2025

4ª edição do Curso de Multiplicadores em Manejo Comunitário de Jacarés fortalece as estratégias participativas de conservação da biodiversidade

11 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá na COP 30: ciência, cooperação e futuro para a Amazônia

5 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá e parceiros para a revista Nature: Florestas saudáveis asseguram os sistemas alimentares tradicionais da carne silvestre na Amazônia

27 de novembro de 2025

Primeira estrutura flutuante para manejo de jacaré no Brasil recebe dispensa de licenciamento ambiental do Governo do Amazonas

25 de novembro de 2025