Pesquisadores e ribeirinhos se unem para monitorar o clima na Amazônia

Estação meteorológica é instalada na Floresta Nacional de Tefé como parte das ações do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia, coordenado pelo Instituto Mamirauá e financiado pelo CNPq

Texto escrito por Bianca Darski / Assessoria de Comunicação, Instituto Mamirauá

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Pesquisadores do Instituto Mamirauá e moradores da Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha discutem a importância do monitoramento do clima na região da Floresta Nacional de Tefé, Alvarães (AM). Foto: Bianca Darski / Instituto Mamirauá

No dia 21 de fevereiro de 2026, pesquisadores do Instituto Mamirauá instalaram uma estação meteorológica na Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, município de Alvarães (AM). A ação foi organizada juntamente com comunitários e tem como objetivo ampliar a rede de monitoramento do clima na região da Amazônia Central e aumentar a resiliência das comunidades através de informações úteis para a adaptação às mudanças climáticas.

Esta é primeira estação meteorológica instalada no âmbito do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia. A estação medirá informações para a compreensão do clima na região onde está localizado o Lago de Tefé, como temperatura e umidade do ar, direção e velocidade do vento, radiação solar e quantidade de chuva. Outras quatro estações serão instaladas, uma para cada lago monitorado no projeto: Lago de Coari, Lago de Janauacá, Lago de Serpa, no estado do Amazonas, e Lago Grande de Monte Alegre, no Pará. 

De acordo com Daniel Michelon, pesquisador do Grupo de Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia do Instituto Mamirauá, medir variáveis meteorológicas é fundamental para entender como o clima está mudando na região amazônica, especialmente em áreas protegidas como a Flona de Tefé. “Essas variáveis controlam diversos processos ambientais, incluindo o nível dos lagos, a ocorrência de secas e cheias, e o funcionamento dos ecossistemas. Esses dados também são fundamentais para compreender as interações entre atmosfera, floresta e corpos d’água, além de alimentar e validar modelos climáticos e ecológicos e de previsão do tempo”, explica o pesquisador.

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Estação meteorológica automática instalada às margens do Lago de Tefé, na Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, Alvarães (AM). Foto: Bianca Darski / Instituto Mamirauá

O coordenador do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia e pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann, destaca a importância da parceria com a comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, e demais comunitárias do Lago de Tefé, para a instalação da estação meteorológica. “Essa estação vai nos ajudar especialmente porque queremos mantê-la por muito tempo para entender como as mudanças climáticas têm afetado o clima da região. Quando falamos em clima, temos que entender em longo prazo, mais de 10 anos idealmente, 30 anos ou mais. Queremos medir ao longo do tempo como a temperatura e chuva tem mudado, se eventos de chuva extrema tem se intensificado nesses anos em relação ao passado... Tudo isso pode ser analisado com a estação meteorológica automática que instalamos. Sabemos que o clima tem mudado. Temos visto ondas de calor muito intensas, tanto no ar quanto na água, entre outros impactos muito fortes das mudanças climáticas, no clima da região de Tefé, Alvarães, da Floresta Nacional de Tefé como um todo”.

Diante de um cenário cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos, como as secas históricas que ocorreram em 2023 e 2024 no Amazonas, pesquisadores do Instituto Mamirauá e de outras instituições concentram esforços para coletar e analisar informações nos ecossistemas aquáticos na região. Com dados de longo prazo e em ampla escala geográfica, o objetivo é entender as consequências desses eventos extremos e prever a sua ocorrência, de forma a subsidiar políticas públicas para reduzir a vulnerabilidade de quem vive e depende dos ecossistemas aquáticos amazônicos. “Para os moradores da Flona Tefé, essas informações ajudarão a entender melhor os padrões de chuva, seca e vento, apoiando o planejamento de atividades locais e fortalecendo a capacidade de adaptação às mudanças climáticas”, explica Daniel Michelon.

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Pesquisador durante a instalação da estação meteorológica na Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, Alvarães (AM). Foto: Bianca Darski / Instituto Mamirauá

Moradores da Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha decidiram o local da instalação da estação meteorológica e discutiram os benefícios para a comunidade. O comunitário Jucelino Oliveira da Costa explica que para ele é motivo de muito orgulho ter uma estação na comunidade. “Conseguir esta estação através do conhecimento e da parceria é motivo de muito orgulho. A gente não tem como saber o quanto está quente ou frio, então tendo um aparelho que mede isso, a gente vai passar a saber, quanto graus está, o que secou, o que choveu”, explica Jucelino Costa.

Silas Rodrigues, presidente da comunidade, aponta que para os comunitários será importante acompanhar como está o clima. “Envolvendo as escolas, quem sabe não pode surgir o interesse de saber o que é uma estação e o que ela faz? Pode surgir pessoas que se interessam pela área de meteorologia e se formar nessa área. Vamos ficar próximos, acompanhando”, destaca o presidente.

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Equipe do Instituto Mamirauá juntamente com moradores da Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha na Floresta Nacional de Tefé, Alvarães (AM). Foto: Bianca Darski / Instituto Mamirauá

Rede de monitoramento climático e ambiental

O Instituto Mamirauá, por meio do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia, mantém desde 2023 uma rede de monitoramento climático e ambiental, composta por quatro estações meteorológicas distantes entre si por mais de 80 quilômetros. As estações estão localizadas na cidade de Tefé e nas unidades de conservação Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Uarini, AM) e Floresta Nacional de Tefé (Alvarães, AM). Além dos dados meteorológicos, também é medido diariamente o nível da água do rio ou do lago com uso de uma régua. 

Mapa com a localização das estações da rede de monitoramento climático e ambiental do Instituto Mamirauá. Fonte: Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia do Instituto Mamirauá

Os dados monitorados são divulgados mensalmente em diferentes canais, como rádio, e-mail e o grupo de whatsapp do Boletim das Águas do Médio Solimões. O grupo foi criado em 2023 e atualmente conta com mais de 900 membros, em sua maioria moradores da região. Além de dados meteorológicos da região do Médio Solimões, são divulgadas informações hidrológicas como o nível do rio do Alto Solimões e de afluentes como os rios Japurá e Negro.

Sobre o projeto Lagos Sentinelas da Amazônia

O projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas” é uma iniciativa que reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades ribeirinhas com o objetivo de compreender e monitorar, de forma colaborativa, os impactos das mudanças climáticas nos lagos da Amazônia Central e possíveis soluções, especialmente para comunidades que vivem no entorno. 

A iniciativa teve início diante dos cenários alarmantes enfrentados pelas águas amazônicas nos últimos anos. Lagos da região se mostraram particularmente sensíveis às mudanças climáticas, sendo impactados por secas extremas que ocasionaram a morte de diversas espécies — entre elas, centenas de botos nos lagos Tefé e Coari, no Amazonas —, além de afetar milhares de pessoas que vivem nessas regiões. Nesse contexto, devido ao fato de os lagos estarem em posições mais baixas na paisagem, eles funcionam como “sentinelas” porque recebem, abrigam, acumulam e refletem tudo que está em seu entorno.

O projeto é coordenado pelo pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann e é financiado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia, voltada à criação de Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. O projeto também conta com apoio da Fundação Gordon e Betty Moore e WCS por meio da parceria com a Aliança Águas Amazônicas, da Fapeam, Sedecti e Governo do Amazonas, além da participação de 15 instituições nacionais e internacionais.

Entre as instituições parceiras do projeto, estão: Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), Instituto Tecnológico Vale (ITV), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de Brasília (UnB), Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), Instituto Cary e Universidade Bangor e Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB).

Escrito por

Bianca Darski

Publicado em

02/03/26

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