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Pesquisa discute atividades de parteiras tradicionais

Escrito por

Vanessa Eyng

Publicado em

10/04/15

A humanização do parto é um assunto de suma importância. A discussão em torno desse tema de saúde pública envolve questões sobre a atenção e o respeito às gestantes e aos recém-nascidos. Nesse contexto, as parteiras são figuras fundamentais nos esforços para humanizar o nascimento.

Emily de Almeida, bolsista do Programa de Iniciação Científica do Instituto Mamirauá, trabalha com parteiras que atuam na cidade de Tefé, Amazonas. “Na primeira fase da pesquisa, em 2013, nós tínhamos como objetivo a identificação de parteiras tradicionais, o que dava continuidade a um projeto anterior, realizado no ano de 2012. Concentramos nossas atividades no bairro Abial, onde havia sido identificado o maior número de parteiras da cidade”, relembra a Emily.

Procurou-se naquele momento definir um perfil socioeconômico de 22 parteiras. A maior parte delas, vindas do interior, divide seu tempo entre atividades de cuidado com a casa, de agricultura e de acompanhamento das gestantes. Por meio de entrevistas, foi possível também identificar as práticas que as parteiras utilizam. As perguntas englobam temas que vão desde a história de cada uma na atividade de partejar, com quem elas aprenderam a prática, até o tipo de procedimentos que realizam e o uso que fazem de remédios caseiros, por exemplo.

A segunda parte da pesquisa, que vem sendo desenvolvida atualmente, engloba o levantamento sobre a relação da religião com o processo de partejar. Em sua maioria, elas têm rezas especiais, que não foram reveladas nas entrevistas. Essas rezas só são proferidas na hora do parto ou na preparação para esse momento. As parteiras também entendem sua habilidade de partejar como um dom recebido de Deus. Sentindo-se presenteadas, elas não cobram por seu ofício.  “Das 22 parteiras que entrevistei somente uma afirmou receber remuneração. A maioria não acha justo cobrar pelo parto”, conta Emily.

Parteiras normalmente são mulheres, mas Emily encontrou em campo um parteiro, o senhor Raimundo Nazareno, de 65 anos: “Ele é muito conhecido aqui na região como Raimundo Batuqueiro. Ele se declarou espírita e nos falou que dois espíritos ensinaram ele a partejar, a vovô Maria Conga, uma escrava que fazia os partos da senzala, e a Caboca Mariana, uma enfermeira. As duas auxiliaram ele em seu primeiro parto, em uma situação de emergência. Essa história nos impressionou bastante. Até chegar no senhor Raimundo, não sabíamos que existiam parteiros na região”.

É importante ressaltar que o trabalho de partejar não ocorre somente na hora do parto. As gestantes são acompanhadas pela parteira que escolheram durante a gravidez. “Elas pegam na barriga para sentir a criança, fazem chás caseiros com plantas que têm na própria casa, fazem massagens com óleos naturais. E é nesse processo que elas criam vínculos de proximidade e de confiança com as gestantes. Elas oferecem apoio emocional, e muitas vezes são conselheiras de toda a comunidade”, releva Emily.

Levantando estes relatos, a pesquisa busca contribuir para a valorização da prática de partejar. “Um dos objetivos de nossa pesquisa é justamente reconhecer o trabalho que as parteiras realizam”, afirma Emily.

O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica é desenvolvido pelo Instituto Mamirauá com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

Encontro de parteiras ocorrerá em maio

As preparações para o 11º Encontro de Parteiras Tradicionais do Médio Solimões já começaram. O encontro, que ocorrerá na cidade de Tefé entre os dias 2 e 5 de maio, é uma iniciativa do Instituto Mamirauá, com apoio do Ministério da Saúde, Secretaria de Estaado de Saúde do Amazonas e das Prefeituras municipais de Tefé, Alvarães, Uarini e Maraã.

O objetivo do evento é discutir temas como a organização do grupo de parteiras, o uso do novo kit das parteiras, aproveitando a oportunidade para treinamentos e revisões de técnicas de reanimação neonatal. No dia 5 de maio, a data que se comemora o Dia Internacional das Parteiras Tradicionais, ocorrerá a 1ª Exposição Cultural das Parteiras do Médio Solimões, com apresentação de artesanatos, mudas e plantas medicinais e apresentações culturais.

Dávila Corrêa, coordenadora do Programa de Qualidade de Vida do Instituto Mamirauá, afirma que “desde 2001, apoiamos e colaboramos com a realização do encontro de parteiras na região, objetivando a troca de conhecimentos tradicionais e médicos, além da inserção dessas mulheres nos planos de ações das secretarias. Nesse sentido, o estudo desenvolvido pela Emily colabora na construção do diálogo entre o saber popular e o científico, pois busca compreender os aspectos sociais e simbólicos que as parteiras estabelecem, no modo de cuidar da saúde”.

Texto: Vanessa Eyng

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