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Instituto Mamirauá inicia simpósio sobre conservação na Amazônia

Escrito por

Instituto Mamirauá

Publicado em

04/07/19

Começou ontem, em Tefé (AM), a 16ª edição do Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia, promovido anualmente pelo Instituto Mamirauá. Durante o evento, cerca de 100 pessoas, entre pesquisadores, técnicos e parceiros, promovem divulgação científica e o debate sobre a conservação da biodiversidade, o manejo de recursos naturais, a gestão de áreas protegidas e os modos de vida das populações locais. Foram 64 trabalhos inscritos entre apresentações orais e em forma de pôster.

Com a palestra “Perspectivas da pesquisa do urbano em Tefé”, Tatiana Schor, da Secretaria do Estado de Planejamento, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovações do Amazonas, questionou o modelo corrente de interpretação do território nacional, que estabelece que a urbanização acontece a partir do litoral e quase deixa de existir quando olhamos para o interior do país. “Nos livros didáticos, encontramos a Amazônia pintada de verde, por quê? “, perguntou a pesquisadora.

Para o IBGE, qualquer cidade com população menor do que 100 mil habitantes é considerada uma cidade pequena. Essa classificação estabelece que, excetuando-se Manaus, todas as cidades do estado do Amazonas são pequenas. “Isso não condiz com a realidade, estamos falando de uma complexidade diferente do sul do país e que é invisível, explica Tatiana. “20 anos atrás, na maioria desses municípios, as pessoas já se consideravam urbanas. ”

O problema deixa de ser apenas na categorização das cidades quando lembramos que as polí­ticas públicas voltadas para o desenvolvimento urbano são construídas a partir desse tipo de classificação. “Considerando terras indígenas e vilas, invertemos essa interpretação. Dessa forma, vemos uma quantidade muito maior dessas ocupações do lado esquerdo da linha do sertão”, acrescenta a pesquisadora.

Tatiana propõe um modelo de interpretação do Amazonas como um “sistema territorial urbano-ribeirinho”, compreendendo as relações entre moradores de unidades de conservação e as cidades. Essas relações se estabelecem mais intensamente tanto no abastecimento das cidades pela produção agrícola nas reservas, quanto na chegada de produtos industrializados para populações de áreas de conservação ambiental. “As pessoas das unidades de conservação, desde muito tempo atrás, utilizam as cidades. Elas fazem parte da vida deles. “, complementa Tatiana.

“Então era preciso desver o mundo para encontrar nas palavras novas coisas de ver”
O verso de Manoel de Barros abriu a palestra “Populações tradicionais, saúde e polí­ticas públicas no território líquido na Amazônia”, do pesquisador Júlio César Schweickardt, do  Instituto Leônidas e Maria Deane – ILMD/Fiocruz Amazonas.

Júlio César propõe uma desconstrução da epistemologia tradicional, ou “epistemologia do norte”, formulada no âmbito da produção de conhecimento de países colonizadores e imposta a populações colonizadas. O processo acaba desconsiderando o conhecimento ‘alternativo’, como o de populações tradicionais. “A epistemologia do Norte, imposta ao resto do planeta, criou uma situação de ausência de outras formas de conhecimento”, explica.

O pesquisador defende a criação de uma epistemologia intercultural, que inclua realidades suprimidas, silenciadas ou marginalizadas. “É necessária a produção de conhecimento que seja solidário com a natureza e com a sociedade, que promova discursos e práticas que evidenciem aquelas populações que, embora tidas como ‘invisíveis’, não estão ausentes do território”, afirma o pesquisador.

Dessa forma se “desvê” o lugar de fala tradicionalmente branco, masculino e colonizador, dando espaço a outras falas, escritas e formas de conhecimento. Júlio César traz como exemplo de sucesso a Associação de Parteiras Tradicionais do Estado do Amazonas (APTAM), uma iniciativa popular apoiada pelo Instituto Mamirauá, que inclui parteiras tradicionais de cidades, comunidades ribeirinhas e indígenas.

Bernardo Oliveira
Bernardo Oliveira
Na terça, dia 2 de julho, foram realizados vários minicursos na sede do Instituto Mamirauá. Foto: Bernardo Oliveira

Pesquisa sobre felinos
Com a palestra “Dimensões humanas do conflito com onças-pintadas: resultados preliminares de um caso de estudo em uma reserva extrativista da Amazônia Central”, a pesquisadora Wezddy Del Toro, do Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia do Instituto Mamirauá, apresentou um estudo sobre a percepção de populações ribeirinhas na Reserva Extrativista Auati-Paraná, no Amazonas, a respeito das onças-pintadas da região.
O objetivo da pesquisa é entender o conflito entre onças-pintadas e moradores da unidade de conservação para elaborar estratégias que reduzam a mortalidade dos felinos. Esse tipo de conflito ainda é frequente na Amazônia Central e costuma estar relacionado à predação de animais domésticos e ao sentimento de insegurança da população.
Wezddy realizou 83 entrevistas em 16 comunidades da Resex Auati-Paraná, com perguntas que procuravam compreender os sentimentos dessa população em relação às onças-pintadas da região. O estudo encontrou uma maioria de percepções negativas sobre as onças, entre elas, a predominância de opiniões a favor da morte do predador como solução para o conflito. Notou-se ainda que tais opiniões tinham como motivação o medo do predador.
A maioria das pessoas entrevistadas afirmou que os felinos trazem prejuízos para a comunidade. Contrariando essa perspectiva, a maioria dos comunitários relata que não mataria uma onça e 24% considerou o manejo adequado do gado como solução para os conflitos.

Texto Bernardo Oliveira

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