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Instituto Mamirauá e parceiros para a revista Nature: Florestas saudáveis asseguram os sistemas alimentares tradicionais da carne silvestre na Amazônia

Escrito por

Instituto Mamirauá

Publicado em

27/11/25

Novo estudo “é o primeiro esforço em larga escala para mapear a caça de animais silvestres em toda a Amazônia”, salientam os pesquisadores.

A imensa riqueza biológica e cultural dos sistemas alimentares baseados na carne silvestre e sua importância para os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores do interior da Amazônia foram reveladas em um estudo inédito recentemente publicado na prestigiada revista científica Nature. A pesquisa, que reúne um conjunto de dados coletados entre 1965 e 2024 em mais de 600 comunidades de todo o bioma amazônico, estima que a carne silvestre produzida na região é suficiente para suprir quase metade das necessidades diárias de proteína e ferro dos 11 milhões de habitantes das áreas rurais do bioma, além de uma parcela significativa de vitaminas do complexo B e zinco, nutrientes fundamentais para a saúde humana.

A diversidade de animais consumidos é surpreendente, abrangendo pelo menos 500 espécies. Contudo, os autores identificaram que 20 grupos de animais respondem por 72% de todos os indivíduos caçados e 84% da biomassa animal total extraída, com destaque para espécies como queixada, anta e paca. Ao longo dos 8 milhões de km² que compõem a Amazônia, os autores estimaram uma extração anual de mais de meio milhão de toneladas de biomassa animal, o que corresponde a 0,37 milhão de toneladas de carne silvestre efetivamente comestível. Quando comparada aos preços atuais da carne bovina, essa produção teria um valor econômico aproximado de US$ 2,2 bilhões ao ano — uma riqueza invisível que sustenta a segurança nutricional dos povos da Amazônia.

Conservação enraizada nos conhecimentos tradicionais

A caça tradicional na Amazônia é profundamente moldada por conhecimentos, regras e práticas culturais que regulam o uso da fauna há milênios. Embora os números estimados de animais caçados anualmente sejam elevados, povos indígenas e comunidades tradicionais têm historicamente praticado uma caça sustentável, defendendo seus territórios e manejando-os por meio de normas sociais e alimentares, restrições espaciais e relações de reciprocidade com os animais. Não por acaso, os maiores berçários de fauna encontram-se hoje justamente nos territórios indígenas e tradicionais.

Segundo Hani El-Bizri, pesquisador do Instituto Mamirauá e do Center for International Forestry Research and World Agroforestry e um dos autores do artigo, “este estudo é fruto de uma parceria estreita e de longa duração entre pesquisadores e comunidades indígenas e locais. É o primeiro esforço em larga escala para mapear a caça de animais silvestres em toda a Amazônia, revelando o quão fundamental é proteger e respeitar as necessidades e culturas dos povos amazônicos para que as florestas continuem de pé e com uma comunidade de animais utilizada em níveis sustentáveis”.

Os pesquisadores enfatizam que propostas de proibir ou substituir a carne silvestre sem reconhecer esse contexto representam visões colonialistas que ameaçam a autonomia e os direitos dos povos da Amazônia. O incentivo ao manejo da fauna silvestre considerando a caça tradicional é o caminho que concilia os interesses da conservação das espécies e os direitos, práticas e o modo de vida dos povos da Amazônia.

A pesquisa, conduzida por dezenas de pesquisadores acadêmicos, indígenas e extrativistas, foi endossada por duas das maiores entidades representativas dos povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia brasileira: a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

O desmatamento ameaça os sistemas alimentares

O estudo também alerta que o desmatamento representa uma ameaça direta a esses sistemas alimentares. Em áreas onde mais de 70% da floresta foi perdida, que corresponde a cerca de 500 mil km², a quantidade de animais e de biomassa animal disponíveis por caçador caiu 67%. Nessas regiões degradadas, espécies mais generalistas, como tatus, capivaras e pombas, são proporcionalmente mais caçadas, sobretudo na proximidade de centros urbanos, onde a demanda por proteína animal é maior.

Substituir a carne silvestre por carne de animais domesticados, uma medida frequentemente sugerida para reduzir a caça de animais silvestres, geraria enorme impacto ambiental. O estudo sugere que a produção de carne bovina equivalente à carne de animais silvestres proveniente da caça produzida para alimentar os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultoras da região exigiria a conversão de até 64.000 km² de floresta em pastos, liberando até 1,16 bilhão de toneladas de gás carbônico — aproximadamente 3% das emissões globais anuais. Além do alto custo ambiental, a carne doméstica, especialmente a de frango, contém níveis muito menores de ferro, zinco e vitaminas essenciais, agravando riscos de deficiências nutricionais entre as populações humanas que vivem nessas áreas.

A pesquisa conclui que proteger a Amazônia é vital não apenas para conservar a biodiversidade, mas para garantir a saúde, o bem-estar, a segurança alimentar e nutricional, a soberania e a continuidade dos modos de vida de milhões de habitantes rurais. Demarcar os territórios e fortalecer a governança indígena e tradicional são estratégias centrais para assegurar a sustentabilidade dos sistemas alimentares baseados na carne de caça e, consequentemente, para o cumprimento de diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

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