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Extrativismo é pouco valorizado na Amazônia brasileira

Escrito por

João Cunha

Publicado em

04/07/18

Diretor-geral do Instituto Mamirauá, o pesquisador Helder Queiroz, aponta que as atividades extrativas vegetais e animais devem ser incentivadas pelos governos locais, em sintonia com a sustentabilidade e com a participação das populações tradicionais

Conjunto de atividades que marca o passado recente e a atualidade da região, o extrativismo é tratado de maneira “informal e preconceituosa” por governos locais na Amazônia brasileira, de acordo com Helder Queiroz. O pesquisador e diretor-geral do Instituto Mamirauá foi o palestrante da manhã dessa quarta-feira (04/07) no 15º Simpósio sobre Conservação de Recursos Naturais e Manejo Participativo (Simcon). O evento acontece na sede do instituto na cidade de Tefé, Amazonas, e debate temas relevantes para o futuro do bioma amazônico.

Com o tema “Governança e Sustentabilidade de Cadeias Extrativas na Amazônia Brasileira – O papel do extrativismo das populações locais na conservação e desenvolvimento sustentável regional”, Helder Queiroz apresentou um panorama da participação das atividades extrativas vegetais, animais e minerais na economia atual da Amazônia.

O pesquisador defendeu que as modalidades vegetal e animal do extrativismo, executadas dentro de bases sustentáveis e com participação dos povos tradicionais da região, são muito importantes para a sobrevivência desses segmentos, como “a garantia de segurança alimentar e de abrigo para a maior parte da população amazônica, como base da maior parte das práticas culinárias tradicionais, um traço fundamental da cultura, e como base de insumos para várias outras cadeias produtivas importantes na Amazônia”, apontou.

O fato de haver grande capilaridade no desempenho do extrativismo apresenta-se como uma forma de distribuir de modo mais democrático os benefí­cios da natureza, um ponto também levantado pelo especialista.

Extrativismo sustentável, coletivo e conectado com as raízes

Para o crescimento e sucesso das cadeias extrativas na Amazônia, Helder indica que é necessário organização, sustentabilidade, intensificação tecnológica e acesso a mercados adequados. “Isto demanda uma ação estratégica e continuada. E para isso não é necessário que a atividade perca seu vínculo com a tradicionalidade original”, afirmou o diretor-geral do Instituto Mamirauá.

O palestrante destacou que o extrativismo, em qualquer uma de suas modalidades, quando praticado de forma inadequada e não sustentável, pode exercer impactos negativos muito fortes, e contribuir para desestabilização socioambiental em larga escala.

De acordo com o pesquisador, parte considerável dos problemas econômicos e ambientais em torno das atividades de extração residem na “incapacidade do Poder Público de regular ou controlar o acesso e uso dos recursos naturais, problemas ou crises que o modelo tradicional de governança do Estado não tem sido capaz de resolver”.

Governanças participativas apontam caminho sustentável

A multiplicação de modelos de governança participativa em países da América foi indicada na palestra como uma via positiva para melhorar as cadeias de extrativismo animal e vegetal. Atividades de manejo com o envolvimento direto dos povos que habitam as regiões de mata e águas na Amazônia, caso do manejo participativo de pirarucu na região do Mamirauá, são exemplos de como a extração de recursos naturais pode ser viável e apoiar a conservação do meio ambiente.

Helder Queiroz deu destaque à realização destes modelos de governança no interior das áreas protegidas no Brasil, a exemplo das unidades de conservação e terras indígenas, onde a maior parte das experiências de manejo sustentável dos recursos naturais está em desenvolvimento. “Especialmente porque dentro das unidades de conservação, os modelos de governança participativa são mais eficientes”.

No entanto, o palestrante apontou que o futuro do extrativismo e da conservação do meio ambiente está além das áreas protegidas por conta, entre outras razões, de existirem cada vez mais limitações às oportunidades de criação de novas áreas de proteção. Mas também porque os recursos naturais também existem fora destas unidades, e porque as mudanças climáticas, que vão alterar a distribuição de espécies, podem tornar obsoletos os limites das atuais áreas protegidas. “O futuro da conservação da Amazônia depende do envolvimento da sua população, dentro e fora das APs (áreas protegidas), e para isso a educação ambiental e a educação para manejo serão fundamentais para garantir este futuro”, considera o pesquisador.

Sobre o simpósio

O Instituto Mamirauá é uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Comunicações e Inovações (MCTIC). Sediada na região do Médio Solimões, Amazônia, o instituto realiza tradicionalmente o Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon). A edição 2018 do evento segue na tarde de hoje (04/06) e nos dias 5 e 6 de julho com palestras e apresentações de mais de 70 trabalhos cientí­ficos. O simpósio conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), Secretaria de Estado de Planejamento, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação e Governo do Estado do Amazonas  e da Fundação Gordon and Betty Moore. Confira a programação completa aqui.

Texto: João Cunha

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