Curso realizado pelo Projeto Entre Águas Amazônicas prepara profissionais e comunidades para conciliar a conservação das populações de jacarés com o uso sustentável dos recursos naturais

Nos últimos três anos, a atividade, de grande importância para a conservação ambiental, vem ganhando força por meio do Projeto Entre Águas Amazônicas, em parceria com o Instituto Mamirauá. As atividades foram realizadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, região que também é referência no manejo sustentável do pirarucu. Assim como ocorre com essa espécie, a iniciativa com os jacarés busca tornar o uso sustentável da fauna uma alternativa de geração de renda para as famílias ribeirinhas que já possuem experiência com a atividade.
Há mais de duas décadas, comunitários da reserva atuam no manejo de jacarés e, em 2026, essa experiência avança para uma nova etapa. A formação de multiplicadores, que tem como objetivo compartilhar conhecimentos e ampliar a capacidade de implantação do manejo em outros territórios, representa mais um passo para viabilizar a comercialização legal da carne de jacaré e consolidar essa prática como uma alternativa econômica sustentável, em especial para as comunidades da Reserva de Mamirauá, que já se encontram em estágio avançado na prática do manejo e já obtiveram anteriormente autorizações de abate e licenciamento de abatedouro.
Para conhecer os procedimentos e adquirir conhecimentos sobre as diferentes etapas da atividade, os participantes tiveram uma imersão prática na reserva. A programação incluiu visita ao abatedouro, estrutura destinada ao abate dos animais, onde os alunos conheceram os procedimentos de processamento e a destinação ambientalmente adequada dos resíduos.
As atividades também contemplaram a contagem de jacarés, procedimento que pode ser aplicado em outras regiões da Amazônia, além da busca e monitoramento de ninhos, levantamento da quantidade de ovos, técnicas de captura e orientações sobre os cuidados necessários com a espécie. Esses conhecimentos são fundamentais para acompanhar as populações naturais e estabelecer critérios técnicos que permitam realizar o manejo sem comprometer a conservação dos animais.
Segundo o coordenador do Programa de Manejo da Fauna (PMF) do Instituto Mamirauá, Diogo de Lima Franco, a formação busca ampliar esse número. “Por meio do curso de multiplicadores, esperamos aproximar os diversos atores-chave nesses processos, assim como nivelar informações e apresentar o que tem funcionado ou não no sistema de manejo que o Instituto Mamirauá apoia”, afirma.
Na Amazônia, o manejo comunitário de jacarés busca justamente conciliar a proteção da fauna com o uso sustentável dos recursos naturais. Com monitoramento das populações, controle da retirada de animais e autorização dos órgãos ambientais, a atividade possibilita o aproveitamento legal da carne e outros produtos e cria perspectivas de geração de renda para as comunidades que vivem na floresta.
Preparar profissionais e representantes comunitários para compartilhar e disseminar esse conhecimento foi o objetivo do curso Multiplicadores de Manejo de Jacaré, realizado entre 28 de setembro e 3 de outubro, em Tefé (AM). A turma reuniu analistas ambientais, gestores públicos, técnicos de organizações não governamentais e representantes de associações comunitárias interessados em conhecer a experiência e contribuir para a implantação do manejo em seus territórios. Também participaram representantes de instituições ligadas à regulamentação, à fiscalização, à pesquisa e à assessoria técnica, além de organizações de base, membros de associações comunitárias e alunos do Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Instituto Mamirauá.

O curso integra o Projeto Entre Águas Amazônicas, executado pelo Instituto Mamirauá, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF).
Usar, mas sem esgotar
Manejar, neste caso, é usar um recurso da natureza com regras que impedem que ele se esgote. No caso dos jacarés, isso significa saber quantos animais vivem em determinada área e acompanhar a reprodução e as condições das populações antes de definir quantos podem ser manejados. Essas informações são reunidas em relatórios anuais que servem de base para o pedido oficial da cota de manejo sustentável.

O manejo extensivo é um sistema adotado em diferentes partes do mundo e, nele, os jacarés não são criados em cativeiro: nascem, crescem e vivem soltos nos lagos e rios da várzea, a floresta que fica alagada durante parte do ano. A cada ano, apenas uma parte dos animais é capturada, dentro de limites definidos a partir da contagem dos animais.
No Brasil, esse tipo de uso ganhou regras próprias no início da década de 2010. Ele só pode ser feito por comunidades organizadas, dentro de áreas protegidas de uso sustentável, onde os moradores podem utilizar os recursos naturais seguindo regras. Envolve duas espécies comuns na região: o jacaré-açu (Melanosuchus niger) e o jacaretinga (Caiman crocodilus). Ainda assim, só há hoje duas experiências em funcionamento no país: na Reserva Mamirauá, no Amazonas, e na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, em Rondônia.
Dessa forma, o uso do animal não ocorre de maneira indiscriminada. Ele faz parte de um sistema controlado, sujeito a regras ambientais, sanitárias e de fiscalização. No modelo apresentado durante a capacitação, conservação da biodiversidade, segurança sanitária e cumprimento das normas fazem parte da mesma cadeia.
Futuro promissor pode gerar renda para quem maneja
Transformar a conservação da fauna em uma oportunidade de geração de renda é uma das perspectivas do manejo sustentável de jacarés na Amazônia. A comercialização da carne e da pele representa uma possibilidade de fortalecimento econômico para as comunidades envolvidas na atividade. Organizados na Associação dos Produtores do Setor Jarauá (APSJ), com assessoria técnica do Instituto Mamirauá, os manejadores participam de todas as etapas, desde a captura até o abate, o processamento e a comercialização dos produtos.
Nos últimos anos, o abate vem sendo realizado em caráter comercial na Planta de Abate Remoto (Plantar), a primeira estrutura flutuante de abate de jacarés licenciada no Brasil, que conta com inspeção sanitária estadual e com base na legislação específica para jacaré. Com a perspectiva de ampliação da atividade, a carne deverá ter como destino o mercado do Amazonas, enquanto a pele poderá ser encaminhada a curtumes de outras regiões do país. Nesse modelo, a conservação também representa uma oportunidade econômica, já que a continuidade da atividade depende da manutenção das populações de jacarés nos lagos. Assim, preservar os animais e os ambientes onde vivem passa a ser também um interesse das próprias comunidades.
A participação de órgãos de regulação e fiscalização na capacitação foi importante para aproximar as normas ambientais e sanitárias da realidade de quem atua nos territórios. Para o médico-veterinário Laércio dos Reis Júnior, fiscal agropecuário da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Amazonas (ADAF), o curso permitiu conhecer “toda a cadeia, do manejo em campo até o processamento na Plantar”. Já Júlia Damo, da Coordenação de Uso Sustentável da Fauna e da Biodiversidade do Ibama, destacou o que viu em campo: “o cuidado na contagem dos ovos, a manutenção da posição original do ninho e a agilidade das técnicas de captura”.
Sobre o Projeto Entre Águas Amazônicas
O Projeto Entre Águas Amazônicas promove, desde 2025, estratégias de conservação participativa associadas à geração de renda e à segurança alimentar em áreas de várzea e manguezal da Amazônia. As áreas contempladas somam cerca de 4,8 milhões de hectares, uma extensão maior que a da Suíça, e incluem reservas extrativistas do litoral paraense, reservas de desenvolvimento sustentável e terras indígenas no Amazonas, além de florestas nacionais e estaduais no Amapá. O projeto é executado pelo Instituto Mamirauá, vinculado ao MCTI, com apoio técnico da FAO e financiamento do GEF.
Texto: Laís Teixeira / Instituto Mamirauá
Fotos: Tácio Melo e Júlia Ratigueri.