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Bases científicas para o manejo de pirarucu: uma década de conhecimentos gerados

Escrito por

Lígia Apel

Publicado em

09/08/12

09.08.2012 – Saber científico e saber tradicional. Esta aliança ficou evidenciada nas primeiras discussões do 1º Seminário Internacional sobre Conservação e Manejo de Pirarucu em Ambientes Naturais, que iniciou ontem, dia 8, e termina hoje, 9. O evento é uma realização do Programa de Manejo de Pesca, do Instituto Mamirauá, no Centro de Convenções Studio 5, em Manaus (AM). Seu objetivo é promover o encontro destes saberes e estimular o diálogo entre pesquisadores, técnicos e pescadores que atuam no manejo participativo de pirarucu em diferentes regiões da pan-Amazônia.
Abrindo os debates, o Diretor Geral do Instituto Mamirauá, Helder Lima de Queiroz, disse que o seminário vem sendo planejado desde 2010, por ocasião do décimo aniversário do sistema de manejo de pesca sustentável de base comunitária desenvolvido na Reserva Mamirauá. “Desde aquele momento ficou clara a necessidade de revisarmos todo o conhecimento científico disponível sobre a espécie, particularmente, aquele conhecimento gerado nos últimos anos, a partir das experiências de manejo”, lembrou Helder.
Com a disseminação do modelo para outras realidades amazônicas, o Instituto Mamirauá entende como necessária a troca das experiências acumuladas ao longo dos 12 anos de práticas efetivas do manejo, seus desafios e conquistas, nas diversas regiões da Pan-amazônia. “È grande a necessidade de prover os técnicos e os tomadores de decisão de uma literatura especializada e de grande profundidade, mas em língua portuguesa”, explica o diretor, referindo-se a vasta literatura que existe sobre o assunto em língua inglesa. Na opinião de Helder, com esse procedimento, será possível “preparar o terreno para um processo mais acentuado e acelerado de multiplicação destas práticas, facilitando a construção de bons planos de manejo e de boas experiências locais na Amazônia Brasileira e nos países vizinhos da pan-Amazônia”.
Compondo a mesa de abertura do Seminário, o pescador e contador de pirarucus, Jorge de Souza, da comunidade São Raimundo do Jarauá, disse que se vê privilegiado e satisfeito por ter contribuído com o desenvolvimento do método de contagem de pirarucu: “eu vejo que foi importante e que deu certo porque, hoje, se faz contagem de pirarucu em outros lugares, em outros estados e até nos outros países”, manifesta o pescador.
Para o representante do Governo do Estado do Amazonas, o Secretário de Produção Rural, Eron Bezerra, os resultados do manejo do pirarucu está na vida integrada do pescador com suas outras atividades: “para uns, o pirarucu é objeto de estudo, para outros é encarado como trabalho, e para outros ainda, é uma atividade a ser regulamentada, mas para o Jorge [pescador] é o sustento da sua vida”. “Portanto”, continua o secretário, “com a intervenção dos profissionais, das pesquisas do Instituto Mamirauá e de outros, se conseguiu recuperar um recurso vital para os pescadores”.
Participaram, também, da mesa de abertura do Seminário, representantes da Secretaria de Pesca e Aquicultura – SEPA, José Otoni Diógenes e da Secretaria de Pesca do Pará, Henrique Sawaki.
Primeira palestra
A palestra “Conservação de pirarucus na Pan-Amazônia” foi proferida pelo oceanógrafo e responsável pelo desenvolvimento do método de contagem de pirarucu, Dr. Leandro Castello, do o Woods Hole Research Center, dos Estados Unidos. Para o pesquisador, o método, “na visão de quem trabalhou e construiu o sistema em conjunto com os pescadores, ao longo do tempo, e em diferentes momentos, o método e seus resultados são consequência de uma divisão de tarefas, cada um (pescadores, comunitários, técnicos e instituições), desenvolvendo seu papel dentro de suas experiências e conhecimentos, acertando, errando e corrigindo, num processo de aprendizagem contínuo e recíproco, que ainda não acabou”, explicou Leandro com expectativas para a continuidade da ação.
Ainda foram apresentadas pesquisas relacionadas à biologia, ao ambiente e às relações ecossistêmicas do pirarucu, às experiências do Peru e da Bolívia, bem como estudos sobre as potencialidades do recurso para o mercado. Fechando as apresentações do dia, o fotógrafo, Rafael Castanheira apresentou seu trabalho fotográfico do manejo dos recursos pesqueiros realizado pelos pescadores associados à Colônia Z-32, de Maraã.
Na avaliação do dia, o Diretor Geral do Instituto Mamirauá, Helder Queiroz, disse que o Seminário está alcançando seus objetivos: “A gente queria fazer uma revisão do conhecimento disponível até o momento e essa revisão está sendo feita. Queríamos colocar em contato as pessoas que estão fazendo experiências similares em diferentes locais, estamos conseguindo fazer isso. Estamos conseguindo discutir uma série de coisas que são importantes tecnicamente para o manejo em português”, explicou Helder. E completou, dizendo que “a apresentação das fotografias ao final dos trabalhos trouxe outro olhar para a realidade dos pescadores, um olhar que mostra que o manejo do pirarucu vai muito além da melhoria da renda, mas envolve a família, as relações de amizade, a emoção, a estética da realidade vivida”.
Texto Lígia Apel

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