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Pesquisa investiga como acontecem emissões de metano em florestas alagáveis da Amazônia

Escrito por

Júlia de Freitas

Publicado em

13/02/20

Descoberta recente mostrou que cerca de metade das emissões naturais de metano da bacia amazônica são feitas pelos troncos das árvores

As águas sobem, espalham-se e invadem florestas. Folhas, frutos e galhos, agora submersos, ficam sob o solo ou são transportados pelas águas. É tempo de cheia na Amazônia, que tem florestas  inundadas durante meses pela dinâmica natural dos rios.

No solo agora submerso, falta oxigênio. Aí­ entram em ação os microorganismos anaeróbios. Na digestão da matéria orgânica em decomposição, alguns produzem metano (CH4), um dos três principais gases do efeito estufa.

As árvores, então, passam a funcionar como ‘chaminés’ naturais. Os troncos são responsáveis por cerca de metade da liberação de metano para a atmosfera em áreas alagáveis do bioma amazônico, a maior planície de inundação coberta por florestas do planeta.

A descoberta publicada na revista Nature Letters em 2017 deu uma resposta à comunidade científica que se deparava com números discrepantes ao comparar concentrações de metano na atmosfera (feitas através de observações por satélite, aeronaves e torres de monitoramento) e os dados de emissões de gases a nível do solo.

Enquanto o primeiro indicava impressionantes emissões de até 50 bilhões de toneladas por ano, as estimativas de metano baseadas em medições por solos e águas amazônicas beiravam 20 bilhões de toneladas.

Agora, onde e como acontece a produção e o transporte do gás são algumas das questões que Rodrigo Nunes, estudante de Ph.D. da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e seus orientadores. Sunitha Pangala e Nick Ostle, pretendem responder.

Canalização do metano

O carbono (CO2) absorvido pelas plantas no processo de fotossí­ntese pode retornar à atmosfera como carbono ou, através da decomposição anaeróbica, ser transformado em metano, gás com potencial de aquecimento da atmosfera 28 vezes maior que o CO2.

Para entender da onde vem o carbono, como é transformado em metano e emitido pelos troncos, o pesquisador irá realizar durante um ano coletas de amostras de solo, água e gases em três tipos diferentes de florestas alagáveis: várzea, área inundada anualmente por cerca quatro meses; chavascal, inundada por aproximadamente seis meses e igapó, permanentemente inundada.

Também serão instaladas estações meteorológicas nas florestas para medições de temperatura e umidade relativa do ar, fatores que influenciam nas projeções do gás.

Após as coletas, o segundo ano de pesquisa será dedicado a experimentos de incubação de solo e de mudas na Casa de Vegetação do Instituto Mamirauá.

O pesquisador irá verificar o desenvolvimento de uma espécie comum aos três tipos de floresta, a seringa barriguda (Hevea spruceana), e mais duas espécies exclusivas e abundantes em cada área estudada.  No experimento, as plântulas serão submetidas a diferentes períodos de inundação. Com isso, as emissões de metano serão monitoradas em conjunto com as diversas variáveis ambientais.

“Vamos simular o efeito de inundação para cada uma das espécies de árvores, estimar as taxas de assimilação de carbono pela fotossí­ntese, assim como as taxas de emissão de carbono e metano, controlando o tempo de inundação a que serão submetidas”, explica Rodrigo.

As coletas serão realizadas nas reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã e a pesquisa conta com o apoio do Grupo de Pesquisa em Ecologia Florestal do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Mudanças climáticas e alterações no bioma

Fenômeno natural e regulador do clima, o efeito estufa sofre processo de intensificação nos últimos 100 anos causado principalmente pelo aumento das emissões de gases por atividades humanas como a exploração de carvão, petróleo e gás natural e a pecuária intensiva.

Para compreender, entretanto, os efeitos de ações humanas neste processo, é necessário entender as emissões naturais e seus fatores ambientais e climáticos. “Sem conhecer o balanço natural, é difícil definir o que é efeito antrópico”, afirma o pesquisador.

O especialista afirma que a pesquisa trará maior compreensão sobre a contribuição das florestas e rios amazônicos na manutenção do equilíbrio climático global.

Os dados também servirão para esclarecer possí­veis consequências de alterações climáticas e construções sobre as emissões naturais no bioma. Construções de barragens, por exemplo, tornam áreas antes alagadas em secas e transforma outras em locais permanentemente alagados. Ainda são desconhecidos os efeitos dessas transformações no balanço natural dos gases.

“A Amazônia tem passado por grandes mudanças, com o desmatamento e a conversão de florestas em pasto e construção de grandes barragens hidrelétricas. Nessas condições, nós ainda não sabemos o que vai acontecer com os rios e florestas da planície de inundação. Essa pesquisa vai contribuir para novos estudos, que nos próximos anos, poderão elucidar essas questões e outras que dizem respeito a causas de mudanças climáticas globais e efeitos das ações humanas na bacia amazônica”, diz Sunitha Pangala, uma das responsáveis pela pesquisa que revelou a magnitude das taxas de emissão de metano por troncos de árvores na Amazônia.

Texto: Júlia de Freitas