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Pesquisa busca identificar potencial nutritivo da alimentação do gado, como solução aos prejuí­zos dos criadores do Amazonas

Escrito por

Amanda Lelis

Publicado em

05/08/15

Durante o período da cheia no Amazonas, os criadores de gado das comunidades ribeirinhas passam por uma série de dificuldades. Com a diminuição das áreas para pastagem, os prejuízos vão desde a desnutrição até a morte dos animais, acarretando em perdas financeiras para as famílias. Visando contribuir com soluções viáveis, a equipe do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá estuda a produtividade e qualidade nutricional de plantas utilizadas como alimento para esses animais na Reserva Amanã (AM).

“A criação de bois e búfalos esbarra em uma série de questões sociais, econômicas, culturais e ambientais. A conversão de áreas da floresta para produção de pastagem é um exemplo disso”, afirmou a veterinária do Instituto Mamirauá, Paula Araujo. O Instituto atua como uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

A equipe já trabalha há três anos prestando assessoria técnica aos criadores da região. De acordo com a veterinária, um diagnóstico participativo foi realizado junto aos criadores no início do trabalho e foi observado que os principais desafios para a criação estavam relacionados à alimentação dos animais.

Paula ressalta que tanto a pesquisa quanto os trabalhos de assessoria técnica realizados junto com os comunitários podem contribuir para o desenvolvimento de iniciativas viáveis para o manejo nessas áreas. “São informações que estamos coletando e que poderão subsidiar estratégias de manejo no futuro. Estamos aproveitando a experiência do criador naquela região para complementar as informações sobre as plantas”, destacou.

A pesquisa visa identificar e conhecer as características das plantas mais utilizadas na alimentação do gado. Os comunitários contribuem ajudando na indicação e caracterização destas plantas. Além da identificação botânica, feita com o apoio de especialistas do Museu Goeldi, a pesquisa também contempla a avaliação agronômica das espécies, que abrange a coleta de dados de produtividade e a análise da qualidade nutricional realizada em laboratório.

De acordo com a veterinária, foi dada prioridade às espécies que ocorrem em terra firme e um dos objetivos da pesquisa é analisar a produtividade e qualidade nutricional de plantas nativas, para que seja avaliada a viabilidade técnica de utilizá-las na formação de pastagens, oferecendo alternativas ao uso de espécies comerciais. “No período da cheia, os produtores precisam ter um recurso alimentar mais planejado para a criação. Então, não é uma prioridade trabalharmos com espécies que serão utilizadas no período da seca, época com fartura de pastagem nas várzeas. Queremos ter informação para subsidiar o trabalho de planejamento do manejo das pastagens na época mais crítica da alimentação dos animais”, afirmou Paula.

Junto com os criadores, foi feita uma lista com um total de 81 nomes diferentes de plantas que servem de alimentação para os animais. A equipe trabalhou com a Lista Livre, metodologia que valoriza o conhecimento local dos moradores da região, que enumeram por ordem de lembrança as plantas utilizadas na alimentação dos animais.

Após a aplicação da Lista Livre, foram selecionadas 31 plantas para aprofundar o conhecimento sobre suas características por meio de um questionário feito com os mesmos criadores.  Nessa etapa, eles classificaram por nota características como: resiliência, ou seja, poder de recuperação das espécies à cheia, seca, chuvas e pisoteio, por exemplo, aceitabilidade dos animais, tempo de crescimento, dominância em relação a outras plantas e adaptação ao sombreamento.

De acordo com a equipe, as informações sobre as plantas poderão auxiliar na adaptação de estratégias de manejo à realidade local, como o sistema silvipastoril, que é a integração da criação animal e árvores numa mesma área. O manejo integrado pode aumentar a produtividade dessas áreas, garantir o recurso forrageiro para os animais e diminuir os impactos às áreas florestais, por exemplo.

“Uma dieta em quantidade e qualidade adequadas para criação de bovinos e bubalinos ajuda a garantir bons rendimentos aos produtores e a diminuir a pressão sob áreas de floresta, mas isto só é possível quando as áreas são manejadas de forma eficiente”, reforçou Paula.

A próxima etapa do trabalho será a avaliação agronômica das espécies listadas. Foram selecionadas algumas dessas plantas para avaliar a produtividade e o seu teor nutricional, por exemplo, a quantidade de fibras, proteína e energia que possui cada amostra.

A veterinária enfatiza que as criações de gado na região da Reserva Amanã, sejam de bubalinos ou de bovinos, possuem características diferentes das criações em outras partes do país. De acordo com Paula, a maioria das criações possuem rebanhos que variam de 3 a 20 cabeças, com impacto menor às áreas florestais, diferente das grandes criações do Centro-Oeste, por exemplo. A pesquisa foi desenvolvida com a participação de 13 criadores de oito comunidades da reserva, localizadas no Lago Amanã e no Paraná do Amanã.

Paula ressalta a importância da atividade para os comunitários. “Diferente das demais atividades que as famílias desenvolvem, a criação consegue ter uma ótima liquidez, ou seja, arrecadar dinheiro mais facilmente para a solução de alguma emergência, como um problema de saúde, por exemplo. Apesar de não ser um recurso com retorno monetário mensal, é um recurso importante para a segurança financeira da família”, alegou Paula.

A pesquisa faz parte do projeto de mestrado da Paula pelo Programa de Pós-Graduação em Agricultura Orgânica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e foi construída a partir da demanda da equipe técnica do Instituto Mamirauá, do qual faz parte.

Texto: Amanda Lelis

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