©

Pesquisa avalia barreiras para a distribuição de pequena espécie de primata amazônico

Escrito por

Amanda Lelis

Publicado em

05/01/17

Um pequeno primata da Amazônia, o macaco-de-cheiro da cabeça preta (Saimiri vanzolinii), que só pode ser encontrado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, está preocupando os pesquisadores. O motivo é que os indivíduos dessa espécie vivem restritos a uma pequena área, de 870km², na unidade de conservação. Os pesquisadores acreditam que o local de ocorrência da espécie vem reduzindo ao longo dos anos, o que pode levar, consequentemente, à diminuição da sua população. As pesquisas desvendaram que, diferente do que ocorre em outras regiões da Amazônia, ou com outras espécies, as barreiras para a dispersão de Saimiri vanzolinii para outras regiões não são físicas, mas ecológicas. Umas das explicações relaciona-se à diferença na estrutura de floresta e disponibilidade de recursos utilizados para alimentação.

A pesquisadora do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Fernanda Paim, explica que são três espécies de macaco-de-cheiro vivendo na região. A hipótese dos pesquisadores é que as outras duas espécies, que ocorrem em maior abundância, poderiam estar pressionando a população do macaco-de-cheiro da cabeça preta. “Em algum momento da história evolutiva dessas espécies, os animais entraram na várzea da Reserva Mamirauá e eu acredito que, de alguma forma, eles estão pressionando Saimiri vanzolinii, o que a longo prazo pode comprometer o tamanho de sua área de distribuição geográfica, podendo levar a espécies à extinção É uma hipótese, que não podemos provar ou testar. Mas esse seria um caso de extinção natural”, disse Fernanda.

Fernanda explica que, durante a pesquisa, foi observado que há uma delimitação clara entre a área de ocorrência das três espécies na Reserva Mamirauá. Os pesquisadores imaginavam que os rios atuariam como barreiras geográficas, separando os limites de distribuição de cada espécie, mas são outros fatores que parecem estar limitando a distribuição. Então, a hipótese que surgiu era: se existe uma separação, uma área bem delimitada, qual é a causa? Na Reserva Mamirauá, a causa foi uma questão ecológica”, explicou.

Fernanda ressalta que a área de ocorrência de uma espécie é um dado importante para traçar estratégias de conservação. O macaco-de-cheiro da cabeça preta é classificado como vulnerável à extinção pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Como a sua área de ocorrência está limitada a uma unidade de conservação, a partir de informações como da dieta e ecologia dessa espécie, poderiam ser sugeridas adequações ao plano de manejo da área, de acordo com a pesquisadora. “Eu considero essa unidade de conservação um sítio biogeográfico muito importante para os macacos de cheiro. É um local de alguma forma especial. Porque três espécies (das sete conhecidas) conseguiram se adaptar e viverem juntas nessas áreas”, contou Fernanda.

O estudo demonstrou que os animais das três espécies utilizam de forma diferente o ambiente e os recursos naturais presentes no local. A ocorrência das três espécies foi avaliada em três diferentes habitats na área da Reserva: várzea alta, várzea baixa e chavascal. Os três ambientes se caracterizam como distintos tipos florestais e contêm diferentes características, mas uma semelhança: são sazonalmente alagadas em função da variação do nível do rio.

Foi observado na pesquisa que os indivíduos de macaco-de-cheiro de cabeça preta têm preferência pelo chavascal, em relação aos outros habitats. “Os chavascais da área de S. vanzolinii possui uma maior riqueza de espécies de árvores, quando comparado ao mesmo tipo florestal para a área das outras espécies de Saimiri“, de acordo com Ferrnanda. Outro ponto interessante observado, como descreve a pesquisadora, é a grande presença de lianas na área de ocorrência do animal dentro dos três habitats. As lianas são um tipo de cipó muito utilizado por esses animais para alimentação. “Pode ser que esses dois fatores estejam interferindo na distribuição da espécie. Então, de alguma forma, essa região onde a espécie está restrita, apesar de ser tão pequena, oferece o que é necessário para ele viver. O que separa a distribuição deles não são rios, mas sim diferenças na estrutura de floresta e oferta de recursos, que são necessários para que a espécie possa sobreviver”, comentou a pesquisadora.

Essa pesquisa é parte do projeto de doutorado de Fernanda Paim na Universidade Federal de Minas Gerais, com recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no programa de doutorado sanduíche, realizado em parte na McGill University, no Canadá.

Texto: Amanda Lelis

últimas notícias

Pesquisa indica que a educação em saúde e acesso a iluminação podem reduzir mordidas de morcego-vampiro e risco de raiva na Amazônia

Projeto realizado pelo Instituto Mamirauá em comunidades tradicionais do Amazonas demonstra que o uso de lanternas solares […]

Instituto Mamirauá
24 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá
24 de fevereiro de 2026

É o Dia das Mulheres na Ciência: Instituto Mamirauá fortalece equidade de gênero na Amazônia por meio da pesquisa e valorização de saberes tradicionais 

As mulheres são maioria nas universidades e pós-graduações brasileiras. No entanto, a representatividade feminina é baixa em […]

Instituto Mamirauá
11 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá realiza expedição para mapeamento de riscos ambientais em 50 comunidades do Médio Solimões. 

No dia 20 de janeiro, a “Expedição de Mapeamento de Riscos e Desastres no Médio Solimões” partiu […]

Tácio Melo
11 de fevereiro de 2026

Nota de Falecimento – Raimundo Nonato Corrêa da Silva, “Lulu”

4 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá disponibiliza novas edições de cartilhas sobre manejo do pirarucu 

31 de janeiro de 2026

Posicionamento da Iniciativa de Golfinhos de Rio da América do Sul, SARDI, sobre avaliação da saúde de golfinhos de rio 

29 de janeiro de 2026

Instituto Mamirauá e parceiros capacitam 50 agentes de saúde em tratamento de água, saneamento e higiene em Tefé, Amazonas

18 de dezembro de 2025

Ministério da Saúde e Instituto Mamirauá firmam acordo para fortalecer ações de saúde indígena no Médio Solimões.

16 de dezembro de 2025

últimas notícias

Pibict: Jovens fortalecem a pesquisa científica no Amazonas

Seminário confirma impacto positivo: ao longo do Programa de Iniciação Científica e Tecnológica coordenado pelo Instituto Mamirauá, […]

Instituto Mamirauá
5 de março de 2026

Instituto Mamirauá
5 de março de 2026

Lagarto de duas caudas: pesquisadoras do Instituto Mamirauá lançam história em quadrinhos sobre caso curioso em lagarto amazônico

Imagine um lagarto que, na tentativa de escapar de um predador, ao invés de perder a cauda, […]

Instituto Mamirauá
2 de março de 2026

Pesquisadores e ribeirinhos se unem para monitorar o clima na Amazônia

Estação meteorológica é instalada na Floresta Nacional de Tefé como parte das ações do projeto Lagos Sentinelas […]

Bianca Darski
2 de março de 2026

Pesquisa indica que a educação em saúde e acesso a iluminação podem reduzir mordidas de morcego-vampiro e risco de raiva na Amazônia

24 de fevereiro de 2026

É o Dia das Mulheres na Ciência: Instituto Mamirauá fortalece equidade de gênero na Amazônia por meio da pesquisa e valorização de saberes tradicionais 

11 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá realiza expedição para mapeamento de riscos ambientais em 50 comunidades do Médio Solimões. 

11 de fevereiro de 2026

Nota de Falecimento – Raimundo Nonato Corrêa da Silva, “Lulu”

4 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá disponibiliza novas edições de cartilhas sobre manejo do pirarucu 

31 de janeiro de 2026

Secret Link