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Pesquisa analisa os efeitos das mudanças climáticas em peixes da Amazônia

Escrito por

João Cunha

Publicado em

17/11/17

Parceria do Instituto Mamirauá com Universidade McGill, do Canadá, vai avaliar como espécies de peixes lidam com aumento de temperatura e baixos níveis de oxigênio, cenário previsto para as águas amazônicas com as mudanças de clima

Colocado em um tanque, um exemplar de Mesonauta insignis nada tranquilamente. Aos poucos, o pequeno peixe ornamental começa a mostrar sinais de inquietação, como se procurasse outro lugar para ir. A água está esquentando e ele sabe disso. Os pesquisadores regulam a temperatura de volta ao índice normal e a paz então é restabelecida. O experimento é feito em um laboratório do Instituto Mamirauá e analisa como as condições ambientais, em um cenário de mudanças climáticas, podem afetar o comportamento e a sobrevivência de espécies de peixes da Amazônia.

Parceria

A iniciativa é fruto de uma parceria iniciada esse mês entre o Grupo de Ecologia e Biologia de Peixes do Instituto Mamirauá e a pesquisadora Lauren Chapman, da Universidade McGill de Montreal. A especialista canadense trabalha há quase 30 anos com espécies de peixes e as possíveis alterações causadas pelo clima em países como Costa Rica e Uganda e dessa vez traz sua experiência para águas amazônicas.

“Nós desenvolvemos há muitos anos um projeto que busca entender como as espécies de peixe reagem a grandes mudanças no ambiente causadas pelo homem”, explica o pesquisador especialista em peixes e diretor do instituto, Helder Queiroz. “Agora, podemos aprimorar esses resultados incluindo questões de temperatura e consumo de oxigênio, porque são as questões mais imediatamente alteradas no contexto de mudanças climáticas”.

Efeitos na economia de peixes ornamentais

A princípio, a pesquisa vai focar em quatro espécies de ciclídeos, família de peixes valorizada no mercado ornamental, para decoração de aquários. Além do Mesonauta insignis, que conhecemos no início da matéria, a lista inclui os coloridos Cichlasoma amazonarum, Apistogramma agassizi e Apistogramma bitaeniata. “Como estamos falando em espécies comerciais, também estamos preocupados no que as alterações ambientais podem significar em termos de quebra da produção, de prejuízos a grandes populações humanas que vivem da exploração dos recursos pesqueiros”, ressalta Helder Queiroz.

Habitantes de águas brancas e águas pretas

Durante pouco mais de uma semana, Lauren e a equipe do Instituto Mamirauá fez duas expedições na região conhecida como Médio Solimões, no estado do Amazonas. Dois ambientes aquáticos convivem nesse território de biodiversidade impressionante: os rios de águas brancas e os rios de águas pretas.

Ligadas a diferentes formações geológicas por onde correm seus respectivos cursos de rios, as águas brancas e águas negras também abrigam tipos de fauna bem distintos entre si. Poucas são espécies que se dão bem em ambas às águas; é o caso das espécies de ciclídeos escolhidas para as análises. Os pesquisadores fizeram coletas de quinze exemplares de cada espécie em águas brancas e em águas pretas.

“Um dos objetivos iniciais do projeto é estudar espécies que vivem em ambientes bem diferentes, que, portanto, já apresentam a plasticidades/tendência de serem muito bem adaptadas às variações ambientais”, afirma Lauren Chapman. “Por isso, vamos fazer testes comparativos entre as espécies idênticas de ciclídeos coletadas em águas brancas e em águas pretas, e analisar qual delas se adapta melhor a perturbações no ambiente”.

Como funcionam os testes

De volta à sede do Instituto Mamirauá, na cidade amazonense de Tefé, a equipe de cientistas faz os experimentos laboratoriais. Em tanques do tamanho de aquários residenciais e divididos em seções, os peixes são colocados de dois a dois e submetidos aos testes de temperatura. A partir de 31ºC (média a que os peixes daquela região estão acostumados a viver em natureza) um equipamento aumenta gradualmente a temperatura do tanque, a cada meio grau.

Filmados por uma pequena câmera, os comportamentos dos peixes são anotados pelos pesquisadores. Muita agitação, tentativas de fuga e inclinar o corpo quase na vertical são indícios de desconforto limite com o calor da água. A bateria de testes dura cerca de 30 minutos, quando os peixes são recuperados para outros tanques, de restabelecimento das condições ambientais.

“Esse tipo de experimento nos diz: isso provavelmente é o que acontece quando nós expomos um peixe a uma mudança muito rápida de temperatura. Nos permite comparar diferentes espécies da mesma maneira e poder afirmar que uma espécie é melhor em lidar com temperaturas maiores”, explica a pesquisadora canadense. “Temos assim um panorama, medindo de uma maneira aguda, de como as espécies vão se comportar em um aumento mais gradual, que é o que já estamos vivenciando com as atuais mudanças de clima”.

Vivendo perto do limite

Os resultados preliminares dessas pesquisas indicam que 38ºC é a temperatura máxima que as espécies de ciclídeos suportam. A marca preocupa Lauren, por ser muito próxima a média que os peixes estão acostumados, de 31ºC. “Os peixes da Amazônia estão vivendo perto do limite térmico”, afirma. “Nas zonas temperadas, os peixes ficam muito gelados no inverno e muito quentes no verão, eles têm uma flexibilidade maior. Nossa preocupação é que na Amazônia se a temperatura média for 31ºC e a máxima 37ºC, 38ºC, existem espécies de peixes que não vão sobreviver daqui a algumas décadas, se a escalada dos níveis de temperatura continuar”.

Expandir os estudos em termos de quantidades de peixes estudados e do tempo de testes a temperaturas mais altas são metas futuras do projeto. “Queremos testar esses peixes por um mês ou dois meses, quando submetidos a uma temperatura constante de 2ºC acima da média atual. Analisar o que acontece se os peixes tiverem tempo para se adaptar”, conta a especialista em peixes.

ADAPTA

O intercâmbio da pesquisadora Lauren Chapman com o Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) faz parte do programa ADAPTA. A cooperação nacional é liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (INPA) “e reúne mais de 20 laboratórios no país, dedicados a estudar as adaptações da biota aquática às ações antropogênicas. As pesquisas são financiadas pela FAPEAM e pelo CNPq”, ressalta a coordenadora do Grupo de Pesquisa Biologia e Ecologia de Peixes do instituto, Danielle Pedrociane.

A pesquisa também conta com a parceria da Universidade do Vale do Acaraú, Ceará, representada pela pesquisadora Daiani Kochhann, que estuda a ecofisiologia de peixes ciclídeos.

De volta a Uganda, onde atualmente realiza pesquisas sobre peixes tropicais, Lauren continuará a parceria com assessoria técnica e envio de equipamentos especializados para continuar os testes de medição de nível de oxigênio e temperatura. Para as bolsistas do Instituto Mamirauá, Carolina Sarmento e Jomara Oliviera, o tempo de aprendizado com a pesquisadora foi fundamental, elas darão seguimento com as coletas e testes com os ciclídeos na região. “Vamos aplicar esse conhecimento às espécies com que trabalhamos aqui e futuramente testar o efeito desses fatores físicos sobre o comportamento agonístico, peça fundamental para compreender a ecologia comportamental da reprodução dos ciclídeos”, diz Carolina.

Texto: João Cunha

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