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Pesquisa analisa escolhas subjetivas e estratégias de produção na economia ribeirinha

Escrito por

Vanessa Eyng

Publicado em

16/12/14

A economia das comunidades ribeirinhas na várzea amazônica dialoga com dinâmicas de produção, consumo e a sazonalidade do nível dos rios. Os núcleos familiares, que são unidades de produção e consumo, constroem aquelas dinâmicas a partir de suas escolhas estratégicas, analisando os riscos e as necessidades para manter o grupo, principalmente em atividades de pesca e de agricultura. Para compreender melhor estes processos, o Instituto Mamirauá desenvolve pesquisa sobre o tema.

Alex Coelho, do Grupo de pesquisa em Organização Social, explica que dados qualitativos foram coletados em 23 domicílios nas comunidades Araçari, Terra Nova, Monte Cristo, Batalha de Baixo e Bela Vista do Batalha, todas na Reserva Mamirauá.  “A maioria dos dados são de observação direta que eu fiz nas comunidades, por meio de entrevistas abertas, enquanto acompanhava suas atividades”, conta Alex.

A partir disso, o pesquisador buscou compreender como as famílias escolhem quais atividades econômicas vão desenvolver e com qual empenho. “O trabalho que a família desempenha tem o objetivo de garantir a subsistência do grupo. Parte do que o grupo necessita vem da produção obtida em atividades de pesca e agricultura, a outra parte é composta de itens básicos como açúcar, café, sabão e de itens duráveis, os bens de patrimônio, como uma segunda casa na cidade, motor rabeta, TV entre outros, que o domicilio adquire no mercado, por meio de ingressos monetários”, mostra Alex.

Na economia destas famílias, cuja orientação é camponesa, uma característica marcante é a diversidade de estratégias econômicas e de produção dos grupos, que são pautadas em escolhas subjetivas, norteadas por uma racionalidade econômica “ribeirinha”. Estas escolhas envolvem a avaliação de diferentes aspectos, cujos pesos podem variar, sempre objetivando diminuir os riscos à subsistência do grupo. E, principalmente, as escolhas não são uma resposta direta às demandas do mercado. Alex acrescenta que “essas estratégias e padrões de mudança estão totalmente atrelados às questões de como o domicílio se programa para conseguir manter o grupo familiar em suas diversas necessidades”.

O tamanho do núcleo familiar, o número de integrantes que desenvolverão as atividades e o número de dependentes é fundamental para pensar essas escolhas. Outro aspecto que influencia na tomada de decisão é a experiência econômica do ano anterior. A disponibilidade de recursos naturais e variações sazonais da várzea, por exemplo, ajudam a pensar as escolhas para o próximo. Os objetivos de aquisição determinados patrimônios também são importantes. “Se a família precisa comprar um motor rabeta, a atividade que vão desempenhar e a parte da produção que será destinada a venda é justamente embasada nesse projeto de consumo. E se a estratégia de um ano não foi satisfatória, no próximo isso poderá ser revisto”, afirma Alex.

Utilizando dados de estudos anteriores, também foi possível perceber mudanças ao longo dos anos. Atualmente, ingressos regulares, provenientes de benefí­cios de transferência direta de renda como o Bolsa Família, o Seguro Defeso ou o Bolsa Floresta, por exemplo, permitem aos domicílios maior acesso a bens de patrimônio, possibilitam a formação de novos padrões de produção e consumo, além de maior envolvimento com o mercado. As comunidades também têm acesso a equipamentos que facilitam a realização de diversas tarefas.  “Aqui surgiu na pesquisa o contraponto do emprego de técnicas que facilitam ou que melhoram o desempenho do trabalho em relação aos anos anteriores. Antigamente para abrir um roçado de uma quadra com machado e terçado, era preciso vários homens trabalhando. Hoje, com uma motosserra, em um dia, uma pessoa pode derrubar uma quadra, diminuindo o esforço do trabalho”, analisa o pesquisador.

Mas isso não implica diretamente em aumento da produção. Alex explica que “se o domicílio planta mais roça, consequentemente tem trabalho dobrado. Se a família não tem força de trabalho suficiente para desmanchar uma roça grande, há risco deles perdem parte da produção. Neste caso, aumentar a roça é resultado de avaliação do grupo quanto à disponibilidade de pessoas que poderão se dedicar a tal atividade, desde o plantio até a colheita, garantindo a produção, e consequentemente a subsistência do grupo familiar e não somente por dispor de equipamentos como motosserra e roçadeira para tal. Assim, a racionalidade econômica ribeirinha está associada principalmente à diversidade de estratégias econômicas desempenhadas pelos domicílios, que têm como objetivo principal garantir o consumo, ou seja, diminuir os riscos à manutenção das necessidades dos grupos domésticos, e não as demandas do mercado”.

Entender as atividades econômicas e as escolhas estratégicas requer atenção a estas diversas possibilidades. “O que motiva as estratégias produtivas e as escolhas das atividades a serem desempenhadas não é apenas o preço da produção no mercado, mas também o esforço empregado pelo grupo para garantir a produção e a disponibilidade de força de trabalho e de recursos naturais disponíveis. Eles desenvolvem as atividades baseados em inúmeras variáveis, e a partir daí é que eles fazem suas escolhas subjetivas”, conclui o pesquisador.

Texto: Vanessa Eyng

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