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Inteligência artificial e sons subaquáticos revelam habitat crítico do peixe-boi amazônico

Escrito por

Instituto Mamirauá

Publicado em

26/05/25

Estudo inédito utiliza tecnologia acústica passiva e aprendizado profundo para monitorar espécie ameaçada nas várzeas da Amazônia 

 

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Crédito: Sônia Vill

 

Pesquisadores do Instituto Mamirauá, em parceria com a Universidade Politécnica da Catalunha, revelaram um habitat crítico do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) por meio de uma abordagem inovadora que combina monitoramento acústico passivo e inteligência artificial. A pesquisa foi conduzida por Florence Erbs, Mike van der Schaar, Miriam Marmontel, Marina Gaona, Emiliano Ramalho e Michel André, e publicada na revista científica Remote Sensing in Ecology and Conservation, da Zoological Society of London (ZSL). 

 

Devido à natureza discreta e ao comportamento esquivo do peixe-boi, métodos tradicionais de observação visual têm se mostrado ineficazes para monitorar a espécie. Para superar esse desafio, a equipe aplicou um modelo de Rede Neural Convolucional que detectou com alta precisão (até 98%) as vocalizações dos animais a partir de longas gravações subaquáticas, coletadas durante duas estações de cheia consecutivas nas várzeas da Amazônia brasileira, entre 2021 e 2022. 

 

O estudo analisou 226 dias de gravações, revelando que os peixes-boi estavam presentes de forma consistente, com vocalizações registradas em até 94% dos dias em 2021 e por até 11 horas diárias nos picos de atividade. 

 

Chamados revelam presença de filhotes e uso reprodutivo do habitat 

 

As vocalizações — caracterizadas por alta frequência e repetição rápida — indicam uma forte possibilidade de interações entre mães e filhotes, reforçando a importância do local para a reprodução da espécie. A identificação da presença de filhotes é especialmente relevante considerando a baixa taxa reprodutiva do peixe-boi amazônico, o que torna qualquer informação sobre sua reprodução valiosa para estratégias de conservação. 

 

Segundo Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, “a identificação de filhotes ao longo do tempo auxilia na compreensão acerca do período reprodutivo, e regiões, como as da Reserva Mamirauá, com presença regular de filhotes, apontam para uma área importante à espécie como local de reprodução e cuidado parental”. Ela destaca que “a proteção de tais áreas é fundamental, tanto para os adultos reprodutivos quanto para os filhotes que se incorporam à população atual”. 

Este é o primeiro estudo a oferecer dados diários contínuos sobre a presença do peixe-boi ao longo das estações, fornecendo uma resolução temporal sem precedentes sobre o uso do habitat por esses mamíferos aquáticos. Embora a área monitorada tenha limitações quanto à replicação espacial — ou seja, não se pode garantir que os dados representem toda a população —, as evidências apontam para a importância ecológica do local estudado. 

 

A análise também sugere que o método pode ser útil para identificar rotas de migração da espécie, especialmente em função do pulso de inundação amazônico (o ciclo natural de subida e descida anual dos rios na Bacia Amazônica), o que permitiria avaliar os impactos da construção de hidrelétricas sobre a sobrevivência das populações. 

 

Tecnologia acessível e promissora para a conservação 

 

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Crédito: Bruno Kelly

 

A combinação de monitoramento acústico passivo com modelos de aprendizado profundo representa uma solução econômica, confiável e escalável, que pode ser aplicada a protocolos de longo prazo de pesquisa e conservação de espécies aquáticas. Esse tipo de tecnologia é especialmente valioso para regiões remotas e de difícil acesso, como os sistemas de água doce da Amazônia, onde os desafios logísticos frequentemente limitam os esforços de conservação. 

Para Marmontel, o potencial de expansão da tecnologia é significativo: “trata-se de equipamentos de pequeno volume, que podem ser instalados em áreas remotas e, em certos casos, sem necessidade de manutenção periódica. Tem a possibilidade de captar sons de inúmeras espécies aquáticas em diferentes áreas e ao longo do tempo”. Ela acrescenta que os próximos passos envolvem “gerar uma grande quantidade de registros para alimentar a inteligência artificial e criar o padrão vocal de cada espécie, além de instalar mais equipamentos ao longo da região, inclusive em locais onde não haja pesquisadores ou centros de pesquisa próximos”. 

Além disso, ao ampliar a capacidade de detecção da espécie em ambientes onde a observação direta é praticamente impossível, o método oferece uma nova janela para compreender o comportamento, a distribuição e as necessidades ecológicas do peixe-boi amazônico. O estudo faz parte do Projeto Providence e contou com financiamento da Fundação Sense of Silence, Fundação Gordon e Betty Moore, do Instituto Rolex e da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco.

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