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Para conservação das espécies, Instituto Mamirauá monitora quelônios da Amazônia

Escrito por

Amanda Lelis

Publicado em

05/05/16

A chegada da estação seca na Amazônia transforma a paisagem e interfere nas relações entre os animais e o ecossistema. Algumas áreas, antes alagadas, se convertem em belas praias arenosas, com a diminuição dos níveis dos rios. Essa época indica o momento do início do ciclo reprodutivo dos quelônios amazônicos.

Uma das linhas de pesquisa do Programa de Pesquisa em Conservação e Manejo de Quelônios, realizado pelo Instituto Mamirauá, estuda a ecologia reprodutiva de três espécies de quelônios da região do Médio Solimões: a iaçá (Podocnemis sextuberculata), o tracajá (Podocnemis unifilis) e a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa). Nesse trabalho, os pesquisadores monitoram áreas de desova dessas espécies, que são principalmente as praias que se formam na estação seca.

Essas três espécies são classificadas como “quase ameaçadas” na lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “Apesar de terem um grau de ameaça, ainda existem muitas lacunas no conhecimento da ecologia e biologia dessas espécies. Por meio dessa pesquisa de longo prazo, conseguimos avaliar diversos aspectos da biologia e ecologia reprodutiva, ampliando o conhecimento científico sobre essas espécies e podendo subsidiar estratégias de conservação”, enfatizou Ana Julia Lenz, pesquisadora do Instiuto Mamirauá.

O monitoramento acontece desde a desova até a saída dos filhotes do ninho. Os pesquisadores percorrem as praias durante toda a noite, período preferido pelas fêmeas para desovar, em busca de ninhos novos ou fêmeas. Quando são encontradas, as fêmeas são capturadas e é feita a medição, pesagem e marcação nos cascos, sendo em seguida liberadas.

Os ninhos encontrados são marcados por GPS, e é feita a biometria dos ovos (medição e pesagem). Esses ninhos são acompanhados durante toda a temporada reprodutiva, até a emergência dos filhotes. Após o nascimento, esses animais também têm seus dados individuais coletados e, após a marcação, são devolvidos ao local de nascimento.

Os pesquisadores estudam parâmetros como o sucesso de eclosão; o número de ovos que realmente geram filhotes viáveis; se existe relação entre o tamanho da fêmea e o tamanho dos ovos ou filhotes; temperatura de incubação do ninho; os locais preferidos pelas fêmeas para fazer seu ninho. Para esse último, é feita a coleta de sedimento do local do ninho, a medição da distância entre o ninho e a vegetação, e entre o ninho e a água. “Tudo isso nos dá informação sobre aquele ambiente que a fêmea escolhe, o que pode ajudar a futuramente selecionar áreas prioritárias pra conservação”, reforçou Ana Júlia.

Monitoramento Populacional

Outra linha de pesquisa do programa é o monitoramento populacional dessas três espécies de quelônios amazônicos, visando o entendimento sobre o status das populações dessas espécies na Reserva Mamirauá. Ou seja, buscar informações sobre como essas populações estão estruturadas, qual sua abundância nos diversos pontos da reserva, qual a proporção entre machos e fêmeas, juvenis e adultos, entre outras.

Para a realização da pesquisa, é feita a amostragem dessas espécies, com a utilização de malhadeiras em diversos pontos da reserva periodicamente. O trabalho é realizado em 48h, com acompanhamento frequente das redes e captura dos animais. Esses animais são devolvidos à natureza após a coleta dos dados individuais. De acordo com Ana Júlia, com a coleta desses dados periódicos, considerando a recaptura desses animais, é possível avaliar parâmetros como crescimento, deslocamento, e como essas populações variam ao longo do tempo, de acordo com a sazonalidade hídrica.

“Conseguimos verificar como as populações estão variando anualmente, se estão se mantendo estáveis, aumentando ou diminuindo, através de uma coleta de dados ao longo do tempo é possível avaliar todos esses parâmetros”, afirma.

Comunidade envolvida, conservação garantida

“Meu irmão, meu amigo, preserve a natureza. Porque sem ela, ninguém vive”. A frase é de Baltazar Ferreira, da comunidade Santa Luzia do Horizonte, localizada no município de Uarini. A comunidade possui um histórico longo de proteção das praias de desova. Seu Baltazar é um dos que iniciaram o trabalho de engajamento dos comunitários para vigia das praias. “No futuro, para outras gerações, o que a gente faz deve ter um grande valor. Tenho setenta e poucos anos e conheci o Amazonas muito rico. Se as pessoas continuarem atacando a natureza em grande escala, de forma predatória, daqui um tempo nada disso vai existir”, reforçou Seu Baltazar.

Na Reserva Mamirauá, localizada na região do Médio Solimões, as comunidades ribeirinhas contribuem para a preservação das praias de desova dos quelônios. Os comunitários fazem uma escala de revezamento para vigiar as praias durante o dia e a noite, em todo o período da seca.

Os ovos e a carne de algumas espécies de quelônios são muito apreciados como alimentação na Amazônia, por isso, possuem valor comercial. A caça tem sido uma ameaça à conservação dessas espécies. “Os invasores levam tudo: os quelônios, os pássaros e os peixes. Porque isso tudo dá dinheiro. Acham que tem o direito de tirar das praias o que bem querem, na quantidade que quiserem. A gente tem que utilizar os recursos para nossa sobrevivência, sem atacar a natureza de forma brutal”, reforçou Baltazar.

Por Amanda Lelis

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