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Manejo do pirarucu: o projeto que salvou a espécie do risco de extinção

Escrito por

Instituto Mamirauá

Publicado em

10/11/25

O manejo sustentável do pirarucu, uma das mais emblemáticas práticas de conservação da biodiversidade na Amazônia e no mundo, celebrou 25 anos de sucesso, marcando um significativo avanço na conservação do maior peixe de escamas de água doce do mundo. Essa jornada começou em 1999, com um projeto piloto na comunidade São Raimundo do Jarauá, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (AM) e, desde então, tem se expandido para diversas regiões do Amazonas, envolvendo mais de 1.300 famílias e 25 municípios. O Instituto Mamirauá, as comunidades ribeirinhas, a Prelazia de Tefé e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), formam o arranjo desta grande história. 

A origem e o crescimento do manejo do pirarucu 

O manejo do pirarucu surgiu como uma resposta às crescentes ameaças da pesca industrial invasora, que declinaram com os estoques pesqueiros em décadas passadas, aproximando a espécie do risco de extinção. Em 1999, com a parceria das comunidades locais, o Instituto Mamirauá desenvolveu uma metodologia inovadora de manejo que envolvia a contagem dos estoques de pirarucu, a proteção de áreas de reprodução, a fixação de um tamanho mínimo para a pesca e a limitação da quantidade de pirarucus pescados. A cota de pesca nunca ultrapassa 30% da população de pirarucus adultos em uma área específica, e o manejo é cuidadosamente monitorado e aprovado anualmente pelo Ibama. Essa abordagem inovadora provou ser um grande sucesso: ao longo de 25 anos, a população de pirarucus nas áreas manejadas cresceu 620%. 

Atualmente, o manejo do pirarucu se estende a 25 municípios do Amazonas, abrangendo seis Unidades de Conservação Federais, Estaduais e Municipais, além de territórios indígenas e acordos de pesca. O modelo de manejo sustentável é reconhecido internacionalmente como um dos mais bem-sucedidos exemplos de conservação e uso sustentável de recursos naturais, contribuindo para a recuperação das populações de pirarucu e melhorando a qualidade de vida das comunidades locais. 

O papel do Instituto Mamirauá e do Ibama 

Ao longo dessas duas décadas e meia, o Instituto Mamirauá desempenhou um papel crucial no desenvolvimento e na implementação do manejo do pirarucu, sendo responsável pelo treinamento e certificação de mais de 1.000 multiplicadores em diversas regiões da Amazônia. Em reconhecimento ao trabalho realizado, o Instituto e o Ibama foram homenageados durante o evento comemorativo de 25 anos do manejo, realizado em Manaus.  

Na cerimônia, a Operação Amazônia Nativa (Opan) destacou as contribuições significativas do Instituto Mamirauá e do Ibama para a implementação do manejo sustentável do pirarucu. A coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto, Ana Claudia Torres, recebeu a homenagem em nome da instituição, agradecendo a todos os parceiros e às comunidades locais pelo trabalho conjunto que transformou o manejo de pirarucu em uma política pública de sucesso. 

A participação de mulheres no manejo do Pirarucu 

A participação das mulheres tem sido uma das características mais notáveis do manejo do pirarucu, com as mulheres desempenhando um papel central não apenas na pesca, mas também em todas as etapas do processo, incluindo a vigilância, a contagem e a comercialização. Elas representam a maioria das pessoas envolvidas no manejo, sendo essenciais para a continuidade e sustentabilidade da prática. 

Indicadores de sucesso e desafios 

Apesar do sucesso evidente do manejo do pirarucu, ainda existem desafios a serem enfrentados, especialmente no que diz respeito à agregação de valor ao produto e ao acesso a mercados maiores. A infraestrutura logística e as barreiras impostas pelas secas severas, como as de 2023 e 2024, dificultam o transporte do pirarucu manejado para grandes centros de comercialização. 

No entanto, um dos avanços mais significativos foi a conquista da Indicação Geográfica (IG) para o pirarucu da Reserva Mamirauá, em 2021, um selo que atesta a qualidade e a autenticidade do produto proveniente dessa área. Essa certificação tem aberto portas para mercados mais exigentes e consumidores que priorizam produtos com impactos ambientais e sociais positivos. A Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), em parceria com o Instituto Mamirauá, tem trabalhado para expandir esse mercado, apoiando as comunidades e criando novas oportunidades econômicas para os pescadores. 

O futuro do manejo do pirarucu 

Com o apoio de projetos financiados por fundos nacionais e internacionais, o manejo sustentável do pirarucu continua a se expandir, agregando valor ao produto e fortalecendo a rede de apoio às comunidades ribeirinhas. O Instituto Mamirauá continua a buscar soluções para aumentar a eficiência da cadeia produtiva e superar os desafios impostos pelas mudanças climáticas e pela escassez de recursos. 

O manejo do pirarucu, ao longo de seus 25 anos de história, não apenas contribuiu para a recuperação das populações de pirarucu, mas também gerou uma maior conscientização sobre a importância de se aliar o conhecimento tradicional com práticas científicas para a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais. Esse modelo de manejo tornou-se um exemplo global de como as comunidades locais, quando apoiadas adequadamente, podem se tornar protagonistas na preservação de seus territórios e na gestão dos recursos naturais, garantindo assim a sustentabilidade e a conservação da biodiversidade da Amazônia para as gerações futuras.