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Laboratório de arqueologia do Instituto Mamirauá reúne acervo sobre a região do Médio Solimões

Escrito por

Vanessa Eyng

Publicado em

20/03/15

Grandes monumentos do passado são sítios arqueológicos bastante conhecidos. Quem nunca ouviu falar de Pompéia ou de Machu Picchu?  Todas essas construções são vestígios deixados pelos antigos habitantes daqueles locais. Mas não são somente os grandes monumentos que atraem a atenção dos arqueólogos. Pequenos indícios são peças fundamentais para compreender o passado.

Objetos, estruturas, feições, sepultamentos, restos orgânicos, lascas de pedras, restos de carvão, fragmentos cerâmicos, amostras de pólen, sementes carbonizadas… São múltiplas as possibilidades para os estudos em arqueologia. Cada um desses pequenos vestígios, e o contexto dos locais onde são encontrados, falam sobre uma história que nos chega por meio da cultura material. Para Eduardo Kazuo Tamanaha, arqueólogo do Instituto Mamirauá, “normalmente as pessoas associam arqueologia a monumentos, sempre focados em imagens da Grécia ou Egito, por exemplo. As pessoas pensam que no Brasil não tem nada, mas de fato tem. Podemos trabalhar com arqueologia desde períodos de 14 mil anos atrás, ou trabalhar até com coisas de 40, 50 anos atrás, como as antigas fábricas, olarias, ou como aqui em Tefé (AM), no antigo seminário. Tudo isso faz parte da arqueologia”.

O Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá abriga uma série desses vestígios. Hoje o acervo reúne mais de 500 peças, resultado de escavações realizadas nas Reservas Mamirauá e Amanã, e no entorno do município de Tefé. Gradativamente as peças são higienizadas, catalogadas e depois analisadas. Algumas peças são remontadas, e ganham uma nova dimensão: “Aí quando você pega esse monte de caquinho, remonta e vira uma urna de um metro de largura por um metro e meio de altura, você já começa a atrair um pouco mais a atenção das pessoas”, conta Eduardo.

Com este trabalho, a pesquisa consegue encontrar informações importantes para compreender aspectos da ocupação humana na Amazônia. A arqueologia é uma fonte privilegiada para o estudo histórico dos povos indígenas antes da chegada dos colonizadores europeus. “Então, para nós, o mais importante é tentar olhar para o que sobrou das antigas ocupações e trabalhar em cima disso. Muitos ainda acreditam que a história do Brasil começa a partir de 1500, como se não tivesse história antes da chegada dos europeus. Mas existe uma longa história das populações indígenas que viveram aqui”, diz o arqueológo.

Estas pesquisas buscam compreender a complexidade daquelas populações. Os sítios encontrados contribuem cada vez mais com essa análise, mostrando que as sociedades pré-coloniais “construíram casas, fizeram roça, tinham todos os seus rituais, cosmologia, e tentamos reconstruir esse contexto social a partir da cultura material”, explica Eduardo.

Cria-se assim um contraponto importante para os debates sobre a ocupação humana da Amazônia. “As primeiras pesquisas na região, por não encontrarem vestígios de grandes monumentos, de grandes campos de cultivo, defenderam que os povos da Amazônia tinham uma cultura com pouca tecnologia. Conforme as pesquisas foram progredindo, os pesquisadores começaram a ver que as aldeias não eram tão pequenas, que tinha gente investindo tempo para produzir cerâmicas bem elaboradas, colaborando com a manutenção e até com a expansão da biodiversidade da Amazônia”, aponta o pesquisador.  Existe uma “invisibilidade da monumentalidade” dos vestígios arqueológicos na Amazônia e, um grande exemplo disso, são os solos antrópicos (“Terra Preta de Índio”) que podem se estender continuamente por quilômetros. Desta forma, os pequenos vestígios e seus contextos mostram uma Amazônia pouco conhecida, cujos sítios são tão impressionantes quantos os sítios monumentais mais famosos.

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Durante a construção de uma escola em Tefé (AM), este conjunto de urnas funerárias antropomorfas foi encontrado e entregue ao Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá. Fotos: Erêndira Oliveira

Texto: Vanessa Eyng

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