“Hoje a gente sai da região do Médio Solimões e passa a pensar em termos de bioma”

Publicado em: 11 de junho de 2019

Em entrevista para a série histórica dos 20 anos de Instituto Mamirauá, o biólogo e diretor-geral do Instituto Mamirauá de 2010 a 2018, Helder Lima de Queiroz comenta o contexto internacional da fundação do instituto, as dificuldades de gerir uma instituição de pesquisa no Brasil e os novos objetivos da organização. Atualmente, Queiroz é pesquisador do Instituto Mamirauá, atuando nas áreas de primatologia e biologia de peixes.

Conte-nos um pouco sobre a sua história com a Reserva Mamirauá.


Meu primeiro contato com a Reserva Mamirauá foi em 1987, quando eu estava fazendo um curso de especialização em primatologia e o Márcio Ayres era um dos professores desse curso. Eu fiquei muito interessado em ser aluno de pós-graduação dele porque ele tinha uma combinação muito interessante: ele era uma pessoa que tinha um desempenho científico extraordinário, os trabalhos que ele publicou tem uma relevância científica bastante considerável, mas, ao mesmo tempo, ele era um professor muito popular. Ele fazia muita piada, era um cara muito engraçado, gostava de passar o tempo dele com os alunos, uma coisa que é bastante rara. 

Quando eu fui para Tefé fazer o meu mestrado, entre os anos de 1989 e 1990, era um período em que o Márcio estava concluindo um ciclo em que ele era, basicamente, o único pesquisador que estava sozinho tentando desenvolver pesquisas científicas baseadas em Tefé, na área de ecologia tropical. E ele estava se preparando para transformar isso num processo de esforço coletivo, pulando de um simples projeto de um pesquisador para um grande projeto coletivo. Ele conseguiu fazer isso após negociar, planejar e negociar isso com várias instituições. 

Comente o contexto da política ambiental mundial naquela época.


O Brasil ainda era uma das nações que andava a reboque na agenda ambiental internacional. A gente só atingiu um status de protagonistas da agenda ambiental agora no século 21. Mas é relevante a gente falar sobre esse contexto internacional porque foi ele que possibilitou que uma série de atores internacionais se juntassem nesse processo. Estava tudo acontecendo concomitantemente. O Márcio estava concluindo o seu período de Reino Unido e a esposa dele à época, a Deborah Lima, também estava terminando o doutorado dela. A área de Mamirauá estava deixando de ser vinculado ao Governo Federal e passando a ter uma vinculação ao Governo Estadual, com um novo status administrativo, com um novo nome e tamanho. Ao mesmo tempo, Márcio estava usando todas as conexões pessoais e políticas que ele tinha para conseguir criar um projeto coletivo grande, buscando apoio do Governo Brasileiro, principalmente por intermédio do CNPq, e, também, com financiamento internacional.

A ideia era fazer um projeto de grandes proporções unindo vários pesquisadores para fazer com que aquela unidade de conservação funcionasse como tal. Ou seja, saísse do célebre status de reserva de papel. 

Em 1990, ele e a Deborah conseguiram reunir todo esse conjunto de pessoas dedicadas a essa ideia interessante que estava sendo colocada. O contexto ambiental internacional é relevante, não apenas porque ele estava pronto para atender a demandas de financiamento, mas também porque ele estava pronto a desenvolver ideias relacionadas aos conceitos de envolvimento e de participação das populações locais. Isso realmente era uma inovação muito grande.

No Brasil, já existiam algumas coisas acontecendo nesse sentido. O movimento das reservas extrativistas já estava em franca expansão. A ideia para o Mamirauá era um pouco distinta da ideia das reservas extrativistas, mas tinham uma série de semelhanças, como, por exemplo, garantir a participação dos moradores locais nos processos de tomada de decisão, pelo menos naqueles que fossem mais relevantes para o manejo do território. 

Como foi sua experiência como diretor do Instituto Mamirauá?


Foi bastante interessante e intensa. A gente costumava dizer que existiam muitas dificuldades em fazer gestão no interior da Amazônia, mas temos que admitir que também existem algumas vantagens. Uma delas é que, no caso do Mamirauá, a gente varia de 220 a 320 pessoas, então é uma instituição pequena, e com isso você tem a chance de humanizar a gestão. Existe essa facilidade de poder estabelecer ligações e relações interindividuais durante momentos difíceis e isso faz com que a solução seja mais rápida e facilmente alcançada. 

Quando a gente teve que enfrentar a crise que se assolou sobre as instituições de pesquisa no Brasil a partir de meados de 2015, isso foi importante. Foi uma crise muito pesada porque não se limitou a um corte abrupto de financiamento, mas também houve, em dados momentos, a ausência completa de interlocutor. O Brasil ainda está muito longe de conseguir virar essa página da crise, mas o momento mais crítico já passou. Eu acredito que a gente conseguiu sobreviver por causa dessas características, por sermos uma instituição pequena e estarmos numa posição privilegiada de poder conhecer e conversar com as pessoas e negociar individualmente com elas. 

Quais são os objetivos do Instituto Mamirauá?


Os objetivos do instituto mudaram bastante nos últimos vinte anos porque o Projeto Mamirauá tinha um objetivo que hoje a gente considera muito pequeno, que era fazer com que uma unidade de conservação funcionasse no ‘Coração da Amazônia’. Era uma coisa muito limitada, do ponto de vista administrativo e do ponto de vista geográfico. 

Hoje o instituto tem como meta fazer subsídios para a conservação das florestas alagadas da Amazônia inteira por meio da abordagem participativa sustentável dos recursos naturais e da melhoria de vida das populações que estão ligadas a essa biodiversidade. Hoje, a gente sai da região do Médio Solimões e passa a pensar em termos de bioma. Passamos a almejar uma mudança de paradigma e comportamento das pessoas em função das suas atividades econômicas e em função da sua própria relação com o meio ambiente onde elas estão inseridas. Esses novos objetivos também refletem uma maturidade institucional em que a gente sabe exatamente para que nós existimos e para onde que a gente tem que ir. 

Ouça a entrevista completa abaixo:

Para assistir a entrevista, clique aqui.


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