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DNA da onça-pintada é decodificado e joga luz sobre evolução do maior felino americano

Escrito por

João Cunha

Publicado em

01/08/17

O Instituto Mamirauá é parceiro na pesquisa e forneceu dados genéticos de onças-pintadas que vivem nas florestas alagadas da Amazônia

Longo e cheio de percalços, não foi nada fácil o caminho da onça-pintada (Panthera onca) e de outros grandes felinos até à atualidade. Quedas significativas de suas populações, períodos severos de frio e muitas, muitas mudanças fizeram parte da vida dos ancestrais do gênero Panthera. Pela primeira vez, pesquisadores decodificaram o genoma da onça-pintada e do leopardo, jogando luz sobre o passado evolutivo desse grupo de animais, cuja história de sobrevivência e adaptação é pouco conhecida.

A pesquisa foi publicada na edição de julho da revista científica Science Advances e mobilizou uma equipe internacional de instituições (leia o artigo). Com mais de 15 anos de investigação da ecologia de felinos na Amazônia Central, o Instituto Mamirauá contribuiu para o trabalho com dados genéticos de onças-pintadas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, estado do Amazonas.

“Com a decodificação do genoma da onça-pintada, foi possível descobrir aspectos sobre a interação da onça com outras espécies de felinos, que, ao longo de milhões de anos, deram vigor à espécie”, afirma Emiliano Ramalho, líder do Grupo de Pesquisa Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia do Instituto Mamirauá e co-autor do artigo.

Decifrando o genoma

O material genético da onça-pintada para a análise foi extraído de um macho da espécie, resgatado ainda filhote no Pantanal e que vivia no Zoológico Municipal de Sorocaba (SP). Feita a decodificação, os pesquisadores compararam os genomas da onça-pintada e do leopardo com os das outras espécies do gênero Panthera, que abrange também leões, leopardos-das-neves e tigres.

Foi possível então estimar o tempo de separação entre as espécies na “árvore” evolutiva (veja o gráfico acima da notícia). Com base nos dados, calcula-se que o grupo de felinos que originou as onças se separou dos felinos ancestrais dos leões e leopardos há aproximadamente 3,5 milhões de anos.

Cruzamentos “recentes”

Mas a análise de DNA aponta que, mesmo depois da separação, membros de espécies diferentes continuaram cruzando entre si. De acordo com os cientistas, a sobrevivência é uma das respostas para esse comportamento. Durante a Era do Gelo, na época do Pleistoceno, as mudanças climáticas e a falta de presas causaram uma redução considerável na população de felinos.

Nesse cenário, o cruzamento com outras espécies ajudou na troca de material genético que foi proveitoso para a perpetuação dos animais. Esses acasalamentos mistos também foram importantes para moldar os genomas dos felinos atuais. “Essas descobertas indicam que a mistura de pós-especiação contribuiu com material genético que facilitou a evolução adaptativa das linhagens de grandes felinos”, escrevem os autores na pesquisa.

Adaptação na Amazônia

“É curioso que dessa hibridização tenha resultado em um genoma como o da onça-pintada, que é um animal com uma ecologia super flexível, como observamos na Reserva Mamirauá”, considera o pesquisador Emiliano Ramalho. Ele se refere à adaptação das onças-pintadas que vivem nessa região de florestas alagadas na Amazônia. Na época da cheia dos rios, quando as águas inundam as florestas, as onças buscam abrigo e moradia na copa das árvores e adequam sua dieta, predando preguiças, macacos e ocasionalmente animais aquáticos, como o jacaré. O comportamento, único, é estudado pelo Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

As pesquisas sobre a ecologia e conservação de onças-pintadas no Instituto Mamirauá têm financiamento da Fundação Gordon and Betty Moore.

Texto: João Cunha

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