“Um processo de crescimento conjunto”, ressalta o diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá sobre visita técnica à sede da organização, em Tefé, Amazonas.

Crédito: João Cunha
Durante toda a semana, de 26 a 30 de maio, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá recebeu, em sua sede e em bases flutuantes na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a visita da Comissão de Acompanhamento e Avaliação (CAA) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A agenda teve como foco principal a avaliação do Relatório Anual de Gestão 2024, no âmbito do contrato de gestão entre o Instituto e o Governo Federal do Brasil.
Comissão reúne representantes do governo e da ciência brasileira
A comissão foi composta por representantes do MCTI, especialistas da academia e técnicos de ministérios parceiros, como o Ministério da Gestão e Inovação (MGI). Entre os participantes estiveram Natalia Aurelio Vieira, nova coordenadora de Avaliação do MCTI, Reinaldo Luiz Bozelli (UFRJ), Vanderlan da Silva Bolzani (UNESP), Ruth Helena Cristo Almeida (UFRA), Marcela Galo Teodoro (SPEO/CGOS/MCTI), Geraldo Wilson Fernandes (UFMG), Byanne Rigonato (MGI) e Dione Vitor dos Santos (MCTI).
A programação começou com recepção na sede do Instituto, seguida da apresentação detalha do Relatório de Gestão de 2024. A agenda se estendeu por cinco dias com atividades técnicas, visitas de campo e reuniões internas.
Troca de experiências e fortalecimento institucional
Segundo Emiliano Ramalho, diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá, a visita da Comissão é um momento importante:
“O momento em que a Comissão do MCTI vem visitar o instituto é muito importante, faz parte de um processo fundamental que é de avaliação do Instituto Mamirauá em relação ao nosso contrato com o Governo Federal e com o povo brasileiro”. O diretor reforça que o encontro vai além da avaliação formal: “Eu enxergo não só como processo de avaliação, mas como processo de crescimento conjunto aqui. Eles trazem experiências de diferentes áreas de conhecimento, aprendemos muito com eles também”.
Pesquisas de destaque: biodiversidade, tecnologias e manejo sustentável
Durante a apresentação do Grupo de Pesquisa em Ecologia de Vertebrados Terrestres (ECOVERT), a Comissão conheceu os protocolos RAPELD (Amostragem Rápida de Biodiversidade e Pesquisa Ecológica de Longa Duração), que vêm sendo aplicados no monitoramento ambiental da região. Esses protocolos permitem que diferentes estudos usem a mesma estrutura amostral, facilitando comparações e o acúmulo de dados ao longo do tempo.
Destaque para a parcela RAPELD didática, instalada no próprio campus do Instituto Mamirauá. Esse módulo de pesquisa serve como ferramenta de ensino e treinamento para estudantes, técnicos e pesquisadores. Ali, são realizados cursos de capacitação em técnicas de amostragem e coleta de dados ecológicos, além de estudos-piloto que ajudam a testar metodologias e formar novos talentos da ciência amazônica.
A estrutura inclui trilhas padronizadas, estações de coleta e áreas de observação que simulam as condições de campo encontradas nas florestas da região. É uma iniciativa que alia pesquisa científica e formação de recursos humanos, sendo uma ponte entre conhecimento acadêmico e aplicação prática para conservação.

Crédito: João Cunha
A comissão também teve contato com estudos desenvolvidos pelo Instituto Mamirauá, como o do comportamento do mico-leãozinho (Cebuella niveiventris), monitorado por armadilhas fotográficas instaladas no campus. Outro destaque foi a utilização de espectroscopia de infravermelho próximo (NIR) para identificação de espécies — uma solução inovadora para regiões megadiversas, onde especialistas são escassos e a agilidade nos levantamentos é crucial.
Um dos destaques da programação foi a apresentação dos dados preliminares do Censo 2024 das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã (AM), conduzida por Dávila Corrêa, diretora de Manejo e Desenvolvimento do Instituto Mamirauá. A atividade ocorreu no dia 27 de maio e revelou informações coletadas em mais de 277 localidades, com mais de 3.400 moradores entrevistados até o momento.
Realizado com apoio de tecnologias como o aplicativo ESRI Survey 123, o levantamento marca um avanço na coleta e análise de dados socioambientais da região. Os dados atualizados, que integram uma série histórica de mais de duas décadas, subsidiam políticas públicas e permitem avaliar transformações sociais, econômicas e ambientais nas comunidades das duas Reservas, fortalecendo a gestão territorial e o planejamento estratégico do Instituto.
Além disso, a Comissão do MCTI prestigiou o lançamento do Protocolo de Manejo de Abelhas Sem Ferrão, que integra ciência e saber tradicional em prol da conservação e da segurança alimentar de populações locais.

Crédito: João Cunha
Torre de Fluxo: pioneirismo no monitoramento de gases
Um dos momentos mais aguardados foi a visita à Torre de Fluxo de Mamirauá, estrutura com 48 metros de altura instalada na floresta de várzea. A torre mede emissões de gases de efeito estufa — como metano, gás carbônico e vapor d’água — com tecnologia de ponta e financiamento da Fundação Gordon & Betty Moore.
É a primeira torre do tipo em florestas de várzea amazônicas e representa um avanço significativo na compreensão dos ciclos de carbono em ecossistemas tropicais úmidos, que são responsáveis por grande parte das emissões naturais de metano no mundo.
Uma visita que inspira e ensina
Reinaldo Bozelli, pesquisador da UFRJ e membro da comissão, destacou o papel estratégico do Instituto Mamirauá: “É um trabalho que a gente faz com muita satisfação porque a gente sempre encontra resultados que são animadores… promovendo a transformação.” Ele também ressalta a importância da experiência in loco na sede do instituto e nas atividades em campo: “Cada visita ao Instituto Mamirauá é uma visita diferente, vamos promovendo uma interação que é saudável para ambas as partes”.