Na Amazônia, a vida pulsa em sintonia com o ritmo das águas. As cheias e secas definem o tempo das colheitas, a circulação de pessoas e produtos, e a abundância dos recursos naturais. Os rios são as estradas da floresta e as várzeas, um dos ecossistemas mais férteis do planeta, garantem o sustento de milhares de famílias com pescados, frutos e outros alimentos.
Entretanto, esse cenário de abundância esconde um paradoxo: milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à água potável. De acordo com o Censo IBGE 2022, cerca de 6,5 milhões de habitantes da região Norte carecem de abastecimento adequado, realidade que contribui para altas taxas de mortalidade infantil e para a precarização das condições de vida em muitas comunidades amazônicas.
Para enfrentar esse desafio, o Instituto Mamirauá, por meio do Programa de Qualidade de Vida, desenvolve tecnologias sociais de saneamento, incluindo sistemas comunitários de abastecimento de água e tratamento de esgoto, adaptados às condições singulares das várzeas e dos ambientes ribeirinhos.
Nos últimos anos, as secas severas no estado do Amazonas têm se tornado cada vez mais frequentes e intensas, afetando não apenas a biodiversidade, mas também a segurança alimentar, a saúde e a economia das populações locais. A estiagem de 2024, assim como a de 2023, revelou a urgência de medidas baseadas na ciência e no conhecimento tradicional para mitigar os impactos desses eventos climáticos extremos e proteger a vida nas comunidades.
Água de Beber: segurança hídrica em tempos de seca
Foi nesse contexto que o Instituto Mamirauá implementou o projeto Água de Beber, uma ação emergencial voltada à garantia de água segura para famílias isoladas pela seca extrema no Amazonas.
A iniciativa utiliza uma metodologia simples e eficaz para tornar potável a água barrenta dos rios em momentos de crise, oferecendo uma resposta concreta à escassez hídrica. O projeto produziu cartilhas, cartazes e um vídeo explicativo que ensinam, de forma prática, como transformar a água turva do rio em uma água cristalina e segura para o consumo das famílias.
O projeto também promoveu a capacitação de agentes de saúde para atuar nas comunidades ribeirinhas durante a estiagem. No segundo semestre de 2024, 60 Agentes Comunitários de Saúde (ACS) de Tefé, 20 de Uarini, 35 Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e agentes de saneamento receberam treinamento sobre o uso e o manejo do tratamento emergencial de água em situações de seca.
Além disso, a iniciativa, realizada em parceria com as prefeituras de Tefé e Uarini, o UNICEF e o Serviço Pastoral dos Migrantes, distribuiu 5 mil kits de tratamento emergencial de água, beneficiando cerca de 25 mil pessoas.
“Com os kits do projeto Água de Beber, cada família consegue tratar até seis mil litros de água, o que garante abastecimento com segurança por cerca de dois meses, mesmo em um cenário de seca extrema”, explica Maria Cecília Gomes, do Instituto Mamirauá.
O Instituto Mamirauá, através de seus grupos de pesquisa e extensão, segue realizando o monitoramento de risco de novas secas extremas e implementando diversificadas estratégias para apoiar a população ribeirinha na adaptação e resiliência às mudanças climáticas.