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Por estimativa populacional de botos na Amazônia, Instituto Mamirauá e WWF navegam rio no estado do Pará

Escrito por

Amanda Lelis

Publicado em

03/09/14

Na semana em que se comemora o Dia da Amazônia, o Instituto Mamirauá e o WWF divulgam os resultados preliminares da expedição realizada para documentar a distribuição e estimar a abundância de botos na Bacia do Tapajós. A equipe percorreu 577 km a bordo de duas embarcações, utilizadas em dois trechos diferentes do rio, no mês passado. Segundo os pesquisadores, o resultado final poderá constituir-se numa importante base de informações para entender e acompanhar a saúde dos rios na região, inclusive em relação a riscos frente a alterações ambientais, como desmatamento e construção de hidrelétricas.
A expedição foi dividida em duas partes: um trecho do rio Tapajós foi percorrido em barco de Santarém até as corredeiras de São Luiz do Tapajós, outro trecho partindo da vila de Penedo, localidade com muitas atividades de garimpo, ao município de Jacareacanga. Foram avistados, ao longo de todo o percurso, 160 indivíduos de tucuxi (Sotalia fluviatilis) e 112 indivíduos de boto vermelho (Inia geoffrensis). Esse número passará por análises estatísticas para obter-se a densidade e abundância de animais.
A ausência de dados populacionais dos botos amazônicos pode dificultar a criação de estratégias de conservação. “A abundância é um dos parâmetros básicos para se fazer um estudo de viabilidade populacional, para saber o status real da população e projetar se ela pode estar ameaçada ou se vai sobreviver. Junto com outras informações, como por exemplo mortalidade e reprodução, podemos modelar e estimar a probabilidade de extinção a curto, médio ou longo prazo”, afirmou Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.
“Os resultados desta primeira expedição na bacia do Tapajós devem servir também para melhor reflexão dos governos, dos cientistas e das comunidades locais e povos indígenas sobre os potenciais impactos de barragens nessa bacia hidrográfica específica, e na Amazônia como um todo. Em uma das mais importantes regiões naturais do mundo, o que se espera é que o planejamento hidrelétrico seja ótimo, responsável do ponto de vista ecológico e democrático, com ampla e transparente discussão e respeito aos direitos das comunidades locais e dos povos indígenas”, afirma Cláudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF.
A metodologia
A contagem dos animais é feita da seguinte maneira: o barco se desloca em linha reta a uma distância de 100 metros da margem, sempre que possível, subindo o rio em direção à nascente. É amostrada uma largura de 200 metros, sendo 100 metros à esquerda e 100 metros à direita da embarcação. São registradas informações como espécie avistada (boto vermelho ou tucuxi), tamanho do grupo (que varia por região, nesta amostragem variou de um a nove indivíduos), distância do animal à margem e distância do barco ao animal. Nessa expedição, também foi feito registro fotográfico da margem, para caracterizar a vegetação, que pode influenciar no número de animais.

De acordo com a pesquisadora do Instituto Mamirauá que coordenou o embarque, Heloise Pavanato, a construção das barragens tem consequências diretas na fauna terrestre e na floresta em si. Para a população de botos, a questão é que não há conhecimento sobre o deslocamento desses animais, o quanto eles conseguem subir e descer o rio. Portanto, segundo a pesquisadora, a construção cria uma barreira, interferindo nesse deslocamento, isolando indivíduos entre os trechos. Isto reduz a interação entre os animais, podendo levar à diminuição da variabilidade genética, aumentando a susceptibilidade a doenças, o que a longo ou médio prazo pode levar à extinção, em nível local.

Os pesquisadores observaram que, ao longo da expedição, o número de indivíduos registrado foi baixo, o que pode significar uma interferência de fatores externos, como a mineração. “Essa é uma região com muitas dragas de mineração, o que pode ser um dos motivos do baixo número registrado”, reforçou Miriam. A expedição foi realizada pelo Instituto Mamirauá e WWF, com participação da Fundação Omacha e Instituto Humboldt. A iniciativa envolveu oito pesquisadores, fotógrafo e cinegrafista, além da equipe de apoio, digitadores e tripulação. Desde 2012, o Instituto Mamirauá realiza esse trabalho para identificar a distribuição e estimativa populacional de botos na Amazônia.
Texto: Amanda Lelis

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