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Pesquisas arqueológicas buscam identificar vestí­gios da ocupação humana na Amazônia

Escrito por

Vanessa Eyng

Publicado em

18/02/15

Um vestígio grande ou pequeno. Uma peça ou seus fragmentos. Esses são alguns indícios que estão levando pesquisadores do Instituto Mamirauá a mapear uma parte da história da ocupação humana no estado do Amazonas. Na região do Médio Solimões, as pesquisas ocorrem tanto nas Reservas Mamirauá e Amanã, quanto em áreas vizinhas, nos municípios de Tefé e Alvarães. As pesquisas arqueológicas são desenvolvidas desde 2006 em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Outra parceria, desta vez com o Instituto Piagaçu, já permitiu a identificação de oito sítios na Reserva Piagaçu-Purus, também no Amazonas. Cada local fornece elementos de comparação e novas evidências para o fortalecimento das descobertas no estado.
Em geral, os vestígios arqueológicos vão de monumentos aos fragmentos cerâmicos ou de pedra lascada. “O contexto onde o vestígio está depositado é que dá subsídios importantes para a sua interpretação. Em que profundidade ele está, ao que está associado, se tem terra preta, se tem vestígio botânico, se tem vestígios ósseos ou de sepultamento. Aí o vestígio não é só mais um caco, mas faz parte de um indício completo de uma sociedade, um testemunho material que foi deixado para trás”, explica Eduardo Tamanaha, arqueólogo do Instituto Mamirauá.
A arqueologia Amazônica tem alguns desafios específicos. A Amazônia é uma vasta área, que engloba nove países latino-americanos. Com dimensões imponentes e riqueza de biodiversidade, muitas vezes esta área é entendida como um vazio demográfico, uma última fronteira de natureza intocada. Ao contrário, as pesquisas arqueológicas na região vêm mostrando um cenário bem distinto. Vestígios encontrados em diferentes áreas indicam uma história milenar de ocupação humana, datada de mais de 14 mil anos.
A arqueologia também vem mostrando que o olhar sob a Amazônia deve ser diferente. Antes da chegada dos europeus ao continente, a Amazônia era densa e diversamente ocupada. Compreender os modos de vida dos povos indígenas neste momento implica em romper com expectativas baseadas em modelos de desenvolvimento que outros grupos humanos vivenciaram, especialmente aqueles dos colonizadores.
A busca por vestígios de agricultura e de domesticação de plantas é um exemplo disso. Cultivar uma planta que crescia sem interferência humana a partir de processos controlados, domesticando-a, foi um fenômeno tipicamente europeu e mesopotâmico.  Durante muitos anos as pesquisas procuravam estes vestígios na Amazônia, sem ter sucesso. Para Eduardo, “as questões metodológicas devem propor novas perguntas. Algumas plantas como a pupunha, o milho, a mandioca, talvez tenham sido de fato domesticadas, mas outras, como o açaí, a bacaba, a castanha, podem ter sido só manejadas. As populações indígenas podem ter manejado as áreas onde essas plantas nasciam e produziam, como também as próprias plantas.  A arqueologia tem encontrado vestígios que podem corroborar essa interpretação”.
Estas relações que os povos amazônicos estabeleceram, e ainda estabelecem com o ambiente apontam para o fato de que a presença humana não é necessariamente predatória. “Então essa biodiversidade da Amazônia não é só um fruto natural, mas ela teve também uma ajuda do homem. Conforme ele interage ele pode manter ou até aumentar essa biodiversidade da floresta”, aponta Eduardo. Assim, as informações arqueológicas colaboram para a criação de polí­ticas consistentes de conservação, que incluem as populações locais, como as Reservas de Desenvolvimento Sustentável.
Como o trabalho é desenvolvido?
Hoje o trabalho do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá, pautado por essas novas discussões, está concentrado em etapas iniciais de pesquisas. Na Reserva Amanã, mais de 30 sítios arqueológicos já foram mapeados e quatro escavados. Os sítios normalmente são apontados pelos próprios comunitários, que conhecem bem as áreas e costumam encontrar os vestígios ao trabalhar a terra. “O legal é que existe uma parceria, os comunitários contam o que conhecem daquele lugar e a gente conta o que sabe sobre o material arqueológico. Eles conhecem a história desde o momento que a comunidade foi fundada, e a gente vai tentar descobrir qual é essa história antes da comunidade ser fundada, tentando construir junto uma história mais longa”, diz Eduardo.
Além disso, também são realizadas análises laboratoriais, datando e classificando vestígios já resgatados.  O Instituto Mamirauá tem a guarda das peças que pesquisa, sendo responsável junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pelo acervo e pela sua manutenção. “A partir de nossas pesquisas, seguindo essa primeira etapa, conseguiremos discutir outras questões interpretativas, como as de manejo. Por isso, sempre tentamos juntar vários pesquisadores diferentes, um que vai trabalhar com a cerâmica, outro que vai trabalhar com a terra preta, outro que vai trabalhar só com os vestígios botânicos, outro só com vestígios de ossos, para assim começarmos a construir um quadro, não só cultural como cronológico também, para o Médio Solimões”, concluiu o pesquisador.
Texto: Vanessa Eyng

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