©

Urnas funerárias com cerca de 500 anos são transportadas para Santarém (PA)

Escrito por

João Cunha

Publicado em

21/03/19

Mais de 1.200 quilômetros (km) de distância, três cidades e cinco dias de viagem por grandes rios da Amazônia. Esse trajeto aventureiro foi percorrido por urnas funerárias que podem ter mais de 500 anos. As peças arqueológicas foram encontradas durante escavações feitas em julho do ano passado em uma comunidade rural no Amazonas. Depois de meses sob a guarda e análises do Instituto Mamirauá, na cidade de Tefé, o destino delas foi a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em Santarém, onde as investigações em busca do passado e origem dessas urnas continuam.

As noves urnas funerárias pertencem à Tradição Polícroma da Amazônia, conjunto estilístico e cultural de cerâmicas arqueológicas cujos registros mais antigos datam de 1.400 anos e são encontradas das Cordilheiras dos Andes até a boca do rio Amazonas. No Brasil, essa foi uma das primeiras vezes em que urnas foram desenterradas por especialistas in situ, ou seja, retiradas diretamente do solo, conservando seu contexto original de enterramento.

Barcos, “recreios” e caminhonetes: a saga para transportar relíquias da Amazônia antiga
O deslocamento das urnas entre as duas instituições cientificas foi realizado em fevereiro. Mas como deslocar cargas tão preciosas, cujo valor nem pode ser monetizado?

O transporte dos artefatos foi um desafio à parte para a equipe de arqueólogos do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O primeiro passo foi conduzir as urnas do sí­tio arqueológico na comunidade Tauary, de onde foram retiradas, até à sede do instituto, no município amazonense de Tefé. O percurso levou cerca de 3 horas a bordo de um “batelão”, espécie de barco a motor comprido característico da região.

“As urnas foram armazenadas no Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá, em um ambiente controlado e mantidas em temperatura constante durante alguns meses. Nesse período, elas passaram pelo parecer de uma conservadora e preparamos o transporte para a UFOPA”, informa Márcio Amaral, arqueólogo do Instituto Mamirauá. “Houve um trabalho de acondicionamento dessas urnas em embalagens de madeira, construídas especificamente para prevenir o impacto e demais eventualidades durante a viagem”.

Com autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), as urnas começaram a jornada até o estado do Pará no último dia 19 de fevereiro. Escoltadas por Márcio Amaral e pela arqueóloga Emanuella Oliveira, as urnas encaixotadas partiram do porto de Tefé em uma embarcação de três andares, conhecida como “recreio”, rumo à Manaus.

Um trecho de quase três dias pelos rios Solimões e Amazonas, durante o qual as urnas foram guardadas em clima refrigerado em uma suí­te do barco. Chegando à capital do Amazonas, mais um deslocamento, para outro “recreio”, dessa vez com parada final em Santarém. O traslado entre embarcações contou com apoio de duas caminhonetes cedidas pelo Museu da Amazônia (MUSA).

De Santarém a Manaus, foram mais dois dias de viagem até aportar na cidade às margens do rio Tapajós. Lá, a equipe da UFOPA, liderada pela arqueóloga Anne Rapp Py-Daniel, aguardava para conduzir os vasos funerários até o laboratório da universidade.

“Para a nossa felicidade, todo material chegou como saiu daqui: em perfeitas condições, sem quebra ou deslocamento de peças. Nesse sentido, foi um sucesso muito grande o transporte”, conta Márcio Amaral. A logística para o transporte das urnas arqueológicas foi custeada pela Fundação Gordon and Betty Moore.

Análises podem fornecer informações sobre os antigos moradores de Tauary
Especialista em análises de vestígios ósseos arqueológicos, Anne Rapp Py-Daniel informa que, através do estudo desse material, a intenção é “verificar se todos os vasos são de fato urnas ou se alguns são vasos de acompanhamento. Além disso, queremos identificar quem eram os indivíduos enterrados, para isso vamos estudar os ossos em si e, dependendo do estado de conservação, buscar conhecer o sexo biológico, a idade e eventuais patologias. Caso tenhamos material suficientemente preservado também queremos fazer análises de DNA, de isótopos e datações”.

“Ademais queremos analisar o solo dentro das urnas para ver se outros elementos, como plantas ou flores, também foram colocados como oferendas junto com ossos”, destaca a pesquisadora. “Após as escavações começaremos o processo de limpeza e análise do material cerâmico, que será feito simultaneamente aos procedimentos de conservação e eventuais restauros. Esse estudo também permitirá entender como os produtores dessas urnas se relacionavam com os outros grupos humanos na região”.

Texto: João Cunha

Últimas notícias

Instituto Mamirauá disponibiliza novas edições de cartilhas sobre manejo do pirarucu 

O Instituto Mamirauá disponibilizou, nesta segunda-feira (27), duas novas cartilhas voltadas ao fortalecimento do manejo sustentável do […]

Tácio Melo
31 de janeiro de 2026

Tácio Melo
31 de janeiro de 2026

Posicionamento da Iniciativa de Golfinhos de Rio da América do Sul, SARDI, sobre avaliação da saúde de golfinhos de rio 

Desde o ano de 2021, a iniciativa SARDI (Iniciativa de Golfinhos de Rio da América do Sul), juntamente com […]

WWF Brasil
29 de janeiro de 2026

Instituto Mamirauá e parceiros capacitam 50 agentes de saúde em tratamento de água, saneamento e higiene em Tefé, Amazonas

Treinamento visa fortalecer a atuação desses profissionais, principais atores da saúde pública na Amazônia, em regiões com […]

Instituto Mamirauá
18 de dezembro de 2025

Ministério da Saúde e Instituto Mamirauá firmam acordo para fortalecer ações de saúde indígena no Médio Solimões.

16 de dezembro de 2025

Mulheres do Teçume d’Amazônia celebram 25 anos de história, memória e fortalecimento comunitário 

16 de dezembro de 2025

Feira do Caranguejo movimenta Castanhal com comercialização sustentável e valorização dos caranguejeiros

15 de dezembro de 2025

4ª edição do Curso de Multiplicadores em Manejo Comunitário de Jacarés fortalece as estratégias participativas de conservação da biodiversidade

11 de dezembro de 2025

Instituto Mamirauá na COP 30: ciência, cooperação e futuro para a Amazônia

5 de dezembro de 2025

Últimas notícias

É o Dia das Mulheres na Ciência: Instituto Mamirauá fortalece equidade de gênero na Amazônia por meio da pesquisa e valorização de saberes tradicionais 

As mulheres são maioria nas universidades e pós-graduações brasileiras. No entanto, a representatividade feminina é baixa em […]

Instituto Mamirauá
11 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá
11 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá realiza expedição para mapeamento de riscos ambientais em 50 comunidades do Médio Solimões. 

No dia 20 de janeiro, a “Expedição de Mapeamento de Riscos e Desastres no Médio Solimões” partiu […]

Tácio Melo
11 de fevereiro de 2026

Nota de Falecimento – Raimundo Nonato Corrêa da Silva, “Lulu”

É com profundo pesar que comunicamos o falecimento do manejador Raimundo Nonato Corrêa da Silva, carinhosamente conhecido […]

Instituto Mamirauá
4 de fevereiro de 2026

Instituto Mamirauá disponibiliza novas edições de cartilhas sobre manejo do pirarucu 

31 de janeiro de 2026

Posicionamento da Iniciativa de Golfinhos de Rio da América do Sul, SARDI, sobre avaliação da saúde de golfinhos de rio 

29 de janeiro de 2026

Instituto Mamirauá e parceiros capacitam 50 agentes de saúde em tratamento de água, saneamento e higiene em Tefé, Amazonas

18 de dezembro de 2025

Ministério da Saúde e Instituto Mamirauá firmam acordo para fortalecer ações de saúde indígena no Médio Solimões.

16 de dezembro de 2025

Mulheres do Teçume d’Amazônia celebram 25 anos de história, memória e fortalecimento comunitário 

16 de dezembro de 2025