“Quero fazer faculdade para poder ajudar a área onde eu vivo”

Publicado em:  1 de outubro de 2019

Aos 25 anos, a estudante Cleissiane Souza da Silva percebeu que fazer faculdade era um sonho possível. A moradora da comunidade Ponto X – que fica na Reserva Mamirauá, município de Maraã (AM) – ingressou, em 2019, no Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Instituto Mamirauá – uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Agora, os planos da pescadora, integrante de acordo de pesca de manejo de pirarucu, são muitos. Segundo a jovem, todos eles vão levá-la a melhorar a vida na comunidade. Saiba mais sobre essa amazonense na entrevista para o site do Instituto Mamirauá.

Como é a vida na comunidade Ponto X?

A vida na minha comunidade é mais voltada para a pesca. Todos somos pescadores lá. Tem agricultura também, mas, para manter a família, é com a pesca mesmo. Eu também pesco e gosto mais de pescar de malhadeira. A gente dá aqueles lances grandes para pegar o pacu. O pessoal todo se mobiliza para fazer aquela pesca no coletivo. É bem legal.

Você também pesca?

Sim, eu pesco sardinha, guatapacu, surubim, que é o peixe liso, que a gente pesca de linha quando eles estão arribando, e o pirarucu também. Quando eu tenho tempo de estar na atividade da pesca, sempre gosto de participar. Eu aprendi a pescar com meus pais e sempre ia junto com os meus irmãos. Eles não gostam muito de me levar para pesca [risos], mas eu insisto, e eles me levam. Eu pesco, puxo o peixe dele,s e eles não gostam muito. Mas eu gosto de estar pescando. Eu participo do Acordo de Pesca Jutaí-Cleto, que é no setor Aranapu, na Reserva Mamirauá, com as funções de coordenação. Eu faço parte da liderança e do monitoramento na área da comunidade. 

Quando começou a trabalhar com o Instituto Mamirauá? 

Foi em 2013, quando comecei a participar das rodadas de negócio de manejo de pesca, que envolvia o processo de autorização, sendo que a primeira pesca autorizada pelo Mamirauá foi, em 2012, na nossa área. Os benefícios da reserva são que a gente pode tirar o peixe, ao mesmo tempo ajuda a espécie a se manter, a aumentar cada dia mais. Tanto que tem áreas que a gente não pode pescar, nem para consumo próprio. Tem áreas que já são para comercialização, manutenção durante o ano para as comunidades até o período de manejo. E a gente vê que a vida de muitas pessoas já teve mudanças por meio do manejo e do benefício que ele traz para cada um dos pescadores. 

Como você ficou sabendo do CVT? O que te levou a querer participar do projeto?

Fiquei sabendo por meio de um colega que participou em 2013. Falaram que o CVT era um programa que capacitava jovens para ajudarem o acordo de pesca. Em 2017, eu conversei com o pessoal da pesca, do Mamirauá, e eles me incentivaram a fazer o curso. Como eu já atuava na diretoria e no monitoramento da pesca, seria de grande importância. Eu me interessei. E, ano passado, eu falei com eles da vaga, tentando saber o que era preciso para fazer a inscrição. Neste ano, eu vim fazer a inscrição com o objetivo de buscar conhecimento para ajudar a minha reserva. Até agora, está atendendo às minhas expectativas, estou aprendendo bastante e vou levar o conhecimento à minha comunidade.

Você está aqui há dois meses, como está sendo a sua experiência de aprendizado? 

O meu objetivo no CVT foi em relação ao termo da organização, como a contabilidade, que é mais necessário na área em que eu atuo, que requer muito da gente, por causa dos números, da quantidade de peixes, essas informações. As oficinas estão sendo de muita importância para mim. Eu vou sabendo mais as informações sobre os peixes, do que pode ou não fazer. Questão do meio ambiente para ajudar com aquilo que estou aprendendo, levando à comunidade para mobilizar as pessoas para terem o respeito com o meio ambiente e não prejudicar o peixe com a poluição. 

Quais são os seus próximos passos no CVT?

A gente vai fazer um diagnóstico na comunidade em julho.  Não sei qual será o resultado, mas provavelmente é a questão do manejo, que está beneficiando os moradores. Verificar o que já melhorou e o que precisa melhorar com o manejo. A questão central é sobre a organização na comunidade e sobre a importância do respeito com o meio ambiente e às áreas que são reservadas, que as pessoas, às vezes, não acatam. Fazer as pessoas terem consciência realmente da importância do meio ambiente em nossas vidas. Então, o meu projeto é trabalhar mais em cima da conscientização das pessoas, em termos de evitar a invasão de áreas dos moradores próximo e ter mais esse respeito às delimitações. Está ocorrendo esse problema, a região fica no centro, as áreas vizinhas ficam bem perto, e esse contato é frequente lá. Então, meu projeto é trabalhar nesse sentido. 

Qual é a sua expectativa com o curso?

Minha expectativa com o curso, daqui para frente, no decorrer desses meses, é melhorar mais a comunicação com as pessoas, porque é a área em que eu trabalho. Dialogar com as pessoas, ajudar a mobilizar. No acordo de pesca, tem muito essa parte de cada um por si. Eu busco mais trabalhar no coletivo. Espero que todos venham trabalhar no coletivo mesmo. Minha expectativa para esses próximos meses é mirar essa parte de juntar o grupo. Não ser cada um por si, mas sim fazer o trabalho coletivamente. 

Qual é o seu sonho? 

Meu sonho é fazer uma faculdade. Ainda estou entre biologia e administração. Fora outros sonhos que a gente tem, mas meu objetivo maior é esse. Meu plano para, após terminar este ano do curso CVT, é voltar para o plano de gestão, concluindo esse projeto. Eu vou buscar fazer uma faculdade. Fazer curso. A gente já está construindo uma casa no Maraã, para não depender totalmente da comunidade. Meus planos são esses. Antes, eu não tinha ideia de fazer uma faculdade. Simplesmente somente o estudo mesmo. Depois, já com os cursos no ensino médio, eu comecei a fazer parte do acordo de pesca e fui descobrindo essa ‘química’ com a natureza nessas duas áreas: biologia e administração. Foi graças ao Instituto Mamirauá. Porque sempre eles incentivam muito as pessoas a trabalhar nessa área, sendo que tendo alguém capacitado, tanto na biologia como na administração, a gente não precisaria tanto deles, pois poderia usar as pessoas de dentro do acordo de pesca da área onde a gente vive. 

Para apoiar projetos do Instituto Mamirauá, como o Centro Vocacional Tecnológico, adquira uma camiseta da campanha “Sonhos Amazônicos”, o endereço moko.com.br/compre. O CVT e essa campanha têm o financiamento da Fundação Gordon e Betty Moore. Vista essa causa!

Entrevista de Júlia Freitas e Everson Tavares; edição de Eunice Venturi.

Confira a entrevista abaixo:


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