“O CVT nos ajuda a olhar e ver qual é a raiz de um problema, como unir uma comunidade”

Publicado em: 10 de setembro de 2019

Ao começar sua entrevista, o estudante Weigson Oleriano Pedroza, de 21 anos, um cidadão tefeense, definiu as pessoas que moram em Tefé em duas categorias: a das que vão para festas e as que não vão. E ele pertenceria a qual categoria? “Eu opto por ficar em casa. Saio às vezes com amigos, mas coisa bem rápida. Prefiro ver filme, ler e escutar música em casa”. Entrou no Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Instituto Mamirauá – uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – em 2017 e se formou no ano passado. Nessa entrevista para o site do Instituto Mamirauá, o filho de agricultor e empregada doméstica falou do período de estudos e das dificuldades que encontrou ao longo do caminho. 

Como é a vida em Tefé?

Tem as partes boas e as ruins. Bom porque é tranquilo. Não tem muita violência, mas faltam algumas coisas como lazer, algumas opões mais para o jovem. As pessoas aqui são divididas entre quem sai para festa ou para algum lugar e quem não sai. Eu opto por ficar em casa. Saio às vezes com amigos, mas coisa bem rápida, e prefiro ver filme, ler e escutar música em casa. Eu sempre estudei aqui em Tefé, apesar de ter morado um tempo em uma comunidade que faz parte da Floresta Nacional de Tefé. Mas desde os meus seis anos eu moro aqui.

Como tefeense, quando teve seu primeiro contato com o Instituto Mamirauá?

A primeira vez que eu vim para o instituto foi aos sete anos. Eu estava na primeira série, do ensino fundamental, a gente veio da escola para cá. Já na adolescência, eu vim para a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, os melhores da turma eram escolhidos para virem para cá. Era uma forma de acompanhar os trabalhos do instituto. Os professores sempre selecionavam os alunos que tinham notas melhores. Eu lembro que a gente via os animais empalhados. Como a gente era criança, era bem curioso ver os peixes, preguiça, macaco, casco de tracajá, jacaré. Isso que eu lembro que marcava muito o período que a gente passava aqui vendo a exposição. 

Qual foi a primeira vez que você ouviu falar do CVT?

A primeira vez que eu ouvi falar do CVT foi na Colônia de Pescadores Z-4, de Tefé. Eles iam desenvolver um projeto de cursos de energia solar para inclusão digital aqui e mandaram convites para associações locais, e a colônia me indicou. Nessa experiência do curso, falaram sobre a turma do CVT e que iria abrir um novo edital para 2017/2018. O que me fez acreditar que eu poderia ser representante da colônia, no CVT, foi que eu teria muitas oportunidades de aprendizados, como a maioria dos princípios de manejo que o instituto trabalha e atua. Queria poder ajudar a associação também e representá-la de uma boa forma. Como eu estou sempre disposto a aprender e ter conhecimentos novos, eu queria me dispor a essa experiência e, principalmente, auxiliar a colônia.

Como foi o período de estudos no CVT? 

Esse período, de um ano que a gente passa aqui no instituto com as disciplinas, é bem intenso e carregado de informações. A gente também tem que acompanhar os conhecimentos, como os vários princípios de manejo, empreendedorismo e gestão de projetos. Além disso, vem acompanhado de oficinas e de matérias que são obrigatórias, como matemática, português, informática e contabilidade. Fora essas, a gente vai vendo os trabalhos das equipes de pesquisa e de manejo do instituto. 

Qual é o seu vínculo atual com a Colônia de Pescadores de Tefé?

Atualmente, sou voluntário. O que me levou a fazer esse trabalho foi quando percebi os problemas na parte de gestão, principalmente do alto valor da energia. A partir do primeiro semestre de estudo no CVT, a gente volta para a associação e realiza um diagnóstico para conhecer os principais problemas. Passei um mês na Colônia, fiz muitas entrevistas com os pescadores e vi que o principal problema envolvia o financeiro , que estava no vermelho por causa da conta de energia. Uma das soluções para o problema seria implantar um sistema de energia solar, mas que também é muito caro. 

Você recomendaria o CVT para outros jovens?

Sim, eu recomendaria, porque, nele, você acessa vários tipos de conhecimento. A gente tem o nosso saber comunitário, que acaba trocando com técnicos e com pessoas de comunidades diferentes, de associação diferentes. O CVT nos ajuda a olhar e ver como é a raiz do problema, como a gente pode auxiliar uma associação ou uma comunidade, como unir uma comunidade. Essa forma é positiva para quem se inscreve no CVT. A gente tem um ano intenso, mas a carga que a gente leva daqui de dentro para nossa vida lá fora, na comunidade, na associação, é muito grande. Acho que a principal missão do CVT é ajudar a gente a manter a nossa floresta em pé e continuar tendo nossos peixes, tendo como se manter, tendo sobrevivência. Fazer manejo florestal ao invés de sair derrubando árvores. Conservar e saber que isso daqui é o nosso futuro também, que a comunidade é o nosso futuro, assim como a associação. A gente tem filhos que, provavelmente, vão ser os sócios, vão ser os comunitários, e o CVT é uma forma pensar no seguinte e de espalhar informação. 

Qual seu sonho, Weigson?

Atualmente, meu sonho está bem “embaraçado”. Antes, quando a gente é criança, tem vários sonhos. Quando eu era criança, meu sonho era ser médico. Era um sonho que eu tinha e que continuou até a adolescência. Depois que eu me envolvi com o CVT, as coisas mudaram um pouco. Estou em dúvida entre engenharia de pesca e medicina, que ainda é um sonho de criança. Atualmente, estou me envolvendo mais na pesca para ver até onde esse sonho me leva, se eu vou gostar, se é isso mesmo que eu quero. 

Para apoiar projetos do Instituto Mamirauá, como o Centro Vocacional Tecnológico, adquira uma camiseta da campanha “Sonhos Amazônicos”, acessando o site MOKO. O CVT e essa campanha têm o financiamento da Fundação Gordon e Betty Moore. Vista essa causa!

Entrevista e edição de Eunice Venturi.

Confira a entrevista abaixo:


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